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Lisboa - Portugal
Tive que insistir muito com o meu médico
para me mandar fazer a mamografia. Porque ele achava que eu era
muito nova (32 anos), tinha amamentado os meus dois filhos (3 e 5
anos) e não tinha historial na família. Mas eu já não achava
muito natural que passado 3 anos, ainda tivesse leite. Ao principio,
só quando apertava o bico do peito, mas em Junho de 1999, começou
a pingar e a molhar a minha roupa, sem que eu estimulasse.
No dia 7 de Julho de 1999, fui fazer a mamografia, muito calmamente
e sem preocupações, porque sempre fui e SOU extremamente saudável
(tive apenas um contratempo,como eu costumo dizer).
Foram detectadas algumas microcalcificações, que não me
assustaram, porque achei que era algo sem importância tal como o
nome indicava: MICRO... .
À noite, falei com o médico que me disse que era necessária uma
pequena intervenção para extrair e analisar.
Nessa mesma semana, fui com o meu marido falar com médico. Pedi
para que me desse todas as hipóteses: ou abria e fechava ou abria e
era maligno então tinha que me fazer uma mastectomia.
Assustados, mas serenos, eu e meu marido conversamos muito.
Resolvemos que eu seria vista por outros médicos, especialistas em
cancro (câncer) de mama. Confiava e confio no meu médico, mas esta não é a
sua especialidade, pois ele é ginecologista/obstetra.
A opinião dos outros médicos era de que eu devia ser operada o
mais breve possível.
Preparei-me para todas as hipóteses e fui falar com um cirurgião plástico,
que assistiria à operação e se necessário colocaria um expanssor,
para me preparar a pele para a futura reconstrução mamária.
Informei a minha família, omitindo à minha Mãe que o caso podia
ser maligno. Porque é uma pessoa muito ansiosa e transmite essa
ansiedade à sua volta. Mas o meu Pai e as minhas 2 irmãs sabiam de
tudo.
Fui operada no dia 26 de Julho.Assistiram à operação o médico
que me operou, um anatmopatologista, que na altura, viu se as
microcalcificações eram ou não malignas, e o plástico. Fui para
a sala de operações calma e rezando para que tudo não passasse de
um susto.
Quando acordei, passei a mão pelo peito, estava toda ligada
(enfaixada)! Fiquei
triste, mas resignada. Afinal estava viva.
Durante os 4 dias, que estive na clinica, recebi muitas visitas: família
e amigos próximos. E claro, os meus filhos, a quem eu disse
que tinha uma ferida na maminha e os médicos tinham tratado. Por
isso a mãe, agora não podia fazer forças com o braço.
Compreenderam muito bem.
O meu marido pôde ficar comigo na clinica e isso foi muito
importante para a minha estabilidade emocional. Deu-me e continua a
dar-me forças e carinho.
Ao fim desses dias, tiraram-me o dreno e fui para uma casa, onde
costumo passar férias, e fica mesmo ao lado da casa de meus Pais
(que moram a 40 km de mim).
Era altura das férias, o que foi muito bom porque tive muita
companhia e ajuda (marido, Pais, irmãs, cunhados...), nunca estava sozinha.
Comecei logo a fazer os exercícios ao braço, como me mandou o médico.
Como se costuma dizer "uma desgraça nunca vem só", o meu
Sogro morreu de insuficiência respiratória, no dia 4 de Agosto.
Novamente, um choque para todos. Mas para mim, foi uma lição, pois
só a morte é o fim. Mostrou-me como nós somos frágeis, mas também
como é importante aproveitar o que a vida nos dá, seja em que
circunstâncias for. Porque, por muito bem que eu agora me sinta, na
altura, estava muito fragilizada e pouco confiante.
Os resultados das análises saíram 2 dias depois. Dos 22 gânglios retirados nenhum estava afetado. O
prognóstico era bom, mas mesmo
assim o médico achou que eu devia fazer 4 sessões de
quimioterapia, com intervalos de 3 semanas.
A 30 de agosto (dia do aniversário da minha Mãe), comecei o
tratamento. Antes, é necessário fazer analises, que no meu caso
revelaram uma grande anemia. Foram precisas 2 transfusões de
sangue.
Cada tratamento durava cerca de 30 minutos. Eu apenas sentia um leve
formigueiro no nariz.
Nos 3 dias seguintes, tinha que tomar logo ao acordar, um comprimido
para evitar vômitos. Deu resultado, porque eu só sentia uma leve
indisposição, nada mais.
Ao 8º dia, fiquei mal dos intestinos, mas com uma dieta alimentar,
voltei ao normal.
O cabelo começou a cair ao fim de 16 dias do 1º tratamento. Não
fiquei à espera que ele caísse , porque achei que seria muito
deprimente. Por isso, rapei-o todo. Na rua, usava uma peruca, para
que os meus filhos não sentissem vergonha de ter uma mãe careca e
também para que eu não ter que estar sempre a explicar o que me
tinha acontecido. Só contei aos amigos mais próximos, não por
vergonha, mas para proteger um pouco a minha intimidade de pessoas
curiosas que não me dizem nada.
No 2º, 3º e 4º tratamento, continuei a tomar os 3 comprimidos
para os enjôos e a dar a mim própria uma injeção na pele da
barriga durante 10 dias consecutivos (para estimular a fabricação
de glóbulos brancos), porque o médico achou que isso evitaria
complicações, do tipo do desarranjo intestinal e outras.
Durante estes meses sentia-me extremamente cansada. Mas tentei
manter a vida dos meus filhos e não só, o mais normal possível. De
manhã, tratava do que era preciso e à tarde, dormia até os meus
filhos chegarem da escola. Tenho a sorte de ter uma empregada todo o
dia, por isso podia descansar.
Os tratamentos terminaram no dia 4 de Novembro.
A 4 de Dezembro, comecei a tomar 1 comprimido de Tamoxifeno, todos
os dias e penso que pelo menos o tomarei durante os próximos 5
anos.
O cabelo só começou a nascer nos primeiros dias de
Janeiro. Era completamente liso e forte. Agora está a nascer com
muitos jeitos e forte, mas ainda é cedo para saber como realmente
ficará. Confesso que estou curiosa!
Durante este tempo, fui sendo seguida pelo cirurgião plástico, que
foi enchendo gradualmente o expanssor com soro fisiológico, para
esticar a pele, de forma, a poder fazer a reconstituição. Convinha
esperar 3 meses, após a última quimio.
No dia 13 de Março, fui novamente operada. Desta vez para fazer a
plástica. Ficou muitíssimo bem feita. Quando estou vestida, mesmo
com roupa justa e decotes pouco exagerados (senão vê-se a
cicatriz), não se percebe que tenho uma prótese de silicone. A
outra maminha, também teve que pôr silicone, mas muito pouco, o
suficiente para equilibrar o tamanho.
Está quase a fazer 1 ano que tudo aconteceu. Está na altura de
fazer exames e analises de rotina. Não tenho receio porque estou
confiante e acho que o pior já passou.
Hoje, faço a minha vida normal, vou à ginástica, vou à praia,
etc. Tenho apenas muito cuidado com o braço, nunca carregando
pesos, nem a bolsa, nada fora de casa. Pois quero evitar que o edema
se instale.
A todas as que lerem e estiverem a passar por algo parecido
desejo muita sorte, muitos pensamentos positivos e agarrem-se à
vida que ela é muito boa!
Ana
Lisboa, Jul / 2000
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