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Me
chamo Ana Paula, e em 1999, com 34 anos, tive o diagnóstico de
câncer de mama, e a indicação de mastectomia total, porém com
reconstrução imediata.
Sou
casada e com dois filhos: uma menina na época com 3 anos e um menino
com 6 anos. A reconstrução imediata foi fundamental na minha recuperação,
pois ter um seio reconstruído, mesmo que por etapas, foi menos
traumático do que "acordar da cirurgia" sem nada,
penso eu.
Atualmente
já fiz a segunda etapa da reconstrução, e o meu seio reconstruído
é até
mais bonito que o "original", e tenho certeza que tive
muito mais ganhos do que perdas com o diagnóstico de câncer.
Passados
dois anos de toda a turbulência em que se transformou as nossas
vidas, hoje posso dizer que não foi por acaso que um câncer
apareceu.
No
fundo, por mais louco e insano que possa parecer , hoje me
reconheço como uma pessoa melhor em todos os sentidos, e isso
foi possível após ter sido diagnosticada.
À
época do diagnóstico, passado o choro convulsivo, pude pensar
que se aquilo estava acontecendo comigo, algum sentido eu teria
que achar.
Ou
seja, se a minha vida estava tão ruim como eu achava, se não
via mais sentido em tantas coisas, aquela era a "deixa"
para mudar muitas coisas. Mal sabia que a mudança seria muito mais
profunda do que eu imaginava, e mais ainda, lenta por implicar na
mudança de conceitos arraigados,de pré-conceitos, e que traria
mudanças em todos os setores da minha vida.
Fiz
a cirurgia, fiz todo o tratamento clássico ( QT e Radio ), mas
fui cuidar da alma, do espírito, num Hospital Holístico Fiz
também um tratamento alternativo. Como disse uma vez ao meu médico
: não importa o que vai me curar, importa que, se eu me curar é
porque Ele permitiu isso.
Hoje,
tenho certeza de que ser atuante no meu tratamento, estar à
frente das decisões, saber todos os detalhes e questionar muito,
tudo que me foi recomendado, seja na Terra seja no Céu por assim
dizer, foi fundamental.
Desde o início assumi que a cura era a minha meta e minha
responsabilidade, e mergulhei fundo nessa busca.
Afinal
tive a chance de me reencontrar, de ir fundo em questionamentos,
e sabia que se procurasse achar "a música da minha vida
" ( segundo LeShan em O Câncer como Ponto de Mutação ),
estaria no caminho certo. Tive
momentos de dúvida sim, de questionar o porquê de tudo aquilo, mas
sabia que nada fora por acaso.
Afinal, como explicar se até 6 meses antes do diagnóstico eu não
estava incluída no grupo de risco ? Na minha família eu sou o
único caso de CA .
Então, se aquilo estava acontecendo, era porque eu tinha muito a
aprender com essa fase, e também as pessoas que estavam junto a
mim.
Através do câncer reestabeleci laços de família que ao longo
do tempo haviam se perdido ou enfraquecido (com duas primas que foram
muito presentes durante todo o processo), pude deitar a cabeca no
colo da minha mãe novamente e pedir colo para o meu pai.
Reencontrei o amor do meu marido e dos meus filhos, passei a ver
a vida de um outro ângulo. Passados
2 anos, estou em fase de controle e muito bem, graças a Deus.
Sou
voluntária no Hospital Holístico no qual me tratei (moro em
Florianópolis), participo do grupo de pacientes especiais que existe
neste hospital (são
aqueles pacientes que assumiram para si a responsabilidade de
cura ) e me sinto realizada ao doar um pouco do muito que recebi naquela
casa.
Junto
com outras conhecidas participo da AMUCC (Associação da Mulher
Catarinense com Câncer), que recentemente foi reconhecida
como utilidade pública e da qual sou vice-presidente, e participo
de um grupo virtual sobre câncer de mama, criado por uma pessoa
que se tornou uma irmã para mim.
Esse
grupo exerce um papel fundamental na minha vida, e algumas
participantes já se conhecem pessoalmente, tanto que
recentemente fomos à Recife conhecer uma outra integrante e o grupo
do qual ela participa ( GAAPAC ). Dessa
viagem trouxe a certeza de que tenho um longo caminho pela
frente, e que finalmente,
soube identificar, trazer a luz, a "música da minha vida
". E que se coisas assim acontecem em nossa vida é porque
Ele quer nos dizer algo.
A cada dia tenho certeza que tenho um longo caminho pela frente, mas
repleto de descobertas maravilhosas, e também de cuidados
eternos, que
por mais desgastantes que sejam no durante, nos deixam mais
aliviadas no depois.
É
importante acreditar em Deus, em si, nos médicos que nos atendem
(mas optar por um que seja seu parceiro, que confie tanto quanto
você, e que para ele você não seja apenas mais um número na estatística
) e nas opções que fazemos, pois são elas que também nos impulsionam.
É
importante cuidar do físico e da alma, estar sempre atenta a tudo, e
procurar aproveitar a vida, fazer tudo para ser feliz nessa segunda
chance que
Ele concedeu
.
Ana
Paula
Out / 2001
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