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Nunca
tive boas referências ao se tratar de câncer de mama, até por que não
cheguei a conhecer minha sogra, que morreu de câncer de mama sem
poder se tratar.
Em
março de 1985 fui fazer uma visitinha rápida ao meu ginecologista,
um check up antes de uma maravilhosa viagem à Europa que faria
com meu marido. Estava recém casada pela segunda vez, embriagada de
felicidade. A primeira mulher de meu marido também morreu de câncer
de mama.
Neste
exame corriqueiro meu médico viu um grande caroço no meu
seio direito, pediu exames urgentes sem falar nada.
Fiz.
Não me preocupava com nada, estava vivendo em função de meu grande
sonho, pois não conhecia o Velho Continente, nada estragaria tanta
felicidade.
Pela
urgência pedida, ficaram todos prontos em 2 dias, e meu marido foi
buscá-los depois de pegar nossos passaportes. O médico estava lá
e falou com ele sobre o câncer de mama que já tomava conta de meus 2
seios.
Fiquei
estarrecida ao saber. Eu ia morrer. Eu ia morrer. Não dava para tirar
da cabeça essa sentença de morte.
Me
virei contra Deus, como essa rasteira logo agora ? E tem hora
certa para rasteiras ?
Eu
estava casada com um homem maravilhoso, que me amava, meus filhos
encaminhados.
Tudo
desabava ao meu redor, incluindo a mim.
Me
xinguei muito, porque nunca fiz o auto exame. Achava que isso era
trabalho do médico e não meu. Eu tinha próteses de silicone e
admirava meu busto, mas não a ponto de perceber um câncer.
Fui
viajar mesmo assim. Me arrependo até hoje, porque fui pensando ser
essa minha última chance de conhecer os lugares antes de morrer. As
fotos refletem meu espírito na época, não aproveitei nada de
toda aquela maravilha.
Queria
fazer amor com meu marido muitas vezes, para compensar as vezes que
ele talvez viesse a me ver sem meus seios. Ele percebeu. Eu estava
fora de controle. Voltamos antes da data certa e fui marcar a
cirurgia.
Em
junho de 1985 fui mastectomizada. Perdi meus belos seios, e me
anulei perante a vida.
Passei
por um período crítico de saúde física, mental e todos os outros
pontos que podem ser afetados.
Engordei
e pedi a separação enquanto ainda fazia minhas 12 sessões de
quimioterapia, Não queria forçar meu marido a conviver com quem ele
não reconhecia mais fisicamente. Ele ignorou tudo que eu fazia e
falava isso, sempre foi mais forte do que eu, embora não soubesse
demonstrar. Nunca me deixou só, e compreendeu minha fraqueza e minha
agonia, só que em silêncio, então não me sentia compreendida,
pensava mil coisas.
Sofri
muito, fiquei sem ver os amigos que tinha. Percebi que não tinha
amigos, só minha família.
Meus
filhos estiveram do meu lado, mas custou muito para me recuperar
totalmente.
Esqueci
do sexo que tanto adorava praticar. Esqueci da vaidade e quando vi
estava desmazelada.
Foram
5 anos assim, até que eu aceitei viajar novamente para a Argentina. Lá
conheci uma mulher que perdeu um seio, teve metástase no cérebro,
andava de cadeira de rodas, e aproveitava a viagem mais que eu.
Despertei.
Supus
que minha vida começava agora, depois de 5 anos de operada. O
terror da volta da doença passou quando fui me dando chance de ser
feliz novamente.
Estou
bem hoje, só não consegui tomar coragem para fazer a reconstrução.
Nisso meu marido foi aberto e me apoiou, diz que não sente falta
deles, mas que sentiria falta de mim.
Bonito, não é ?
Escrevo minha
história depois de ter voltado da minha terceira viagem à Europa.
Espero com ela ajudar outras tantas que talvez estejam iguais a mim,
desistindo da vida enquanto tem que desistir da doença, do
sofrimento. Meu sofrimento mental foi pior que o físico.
Reaprendi
a fazer amor, continua sendo bom, Graças a Deus, pensei ter esquecido
de como era. Minhas cicatrizes me importam menos e estou de bem com
minha aparência.
Sejam
felizes, é o que importa. Com ou sem seio, mas felizes. Sempre.
Clara
Abr / 2001
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