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Beja - Portugal
Era um outubro morno, quase com roupagens
de outono, mas ainda aquecia.
Estávamos em 1999, numa dessas manhãs outonais. O chuveiro corria,
corria, e eu deliciava-me com as carícias que a água faz, ao tocar o
nosso corpo. Ao ensaboar-me, senti que algo de diferente se passava no
meu corpo; tornei a tocar o mesmo sítio e senti um durãozinho no
seio esquerdo. Por momentos o meu
pensamento ensombrou-se.
Desviei de imediato o negrume que me tinha ocorrido. O dia correu
normal sem mais lembrar o que tinha acontecido. No dia seguinte, ao
proceder da mesma maneira, o grãozinho continuava lá. Não pensei
duas vezes, contatei o meu médico e contei-lhe o sucedido. De
imediato fui consultada e para mais certezas fui fazer uma mamografia
e uma ecografia.
Não fiquei de modo nenhum preocupada, pois eram exames que iriam
confirmar o diagnóstico. Quando todos os exames estavam prontos,
voltei ao médico. Como ele é uma pessoa que nos transmite confiança
e tranqüilidade, quaisquer desconfianças que pudessem existir
dissiparam-se. Depois de atentamente ter verificado os exames,
disse-me:- o melhor é tirarmos esse nódulo para não causar
problemas. Indicou-me uma equipe e continuei na minha vida normal, sem
qualquer espectro que me passasse pela mente.
No dia indicado para a consulta, fiquei satisfeitíssima ao verificar
que um dos médicos que acima referi, era um grande amigo, uma pessoa
que em todo o desenrolar deste problema foi: médico e amigo, muito
humano, com uma presença e ajuda extraordinária. Parece-me, que no
decorrer de todo este processo, só tive pessoas que me ajudassem e
encorajassem, incluindo os meus familiares. Não pensava nem tinha a
menor idéia, do que ia acontecer. Foi-me feita nessa consulta uma punção,
e enviada para o laboratório. Entretanto marcaram-me nova consulta,
para saber o resultado do exame. Passaram talvez três semanas e
regressei à consulta para ser informada do resultado. Este foi
negativo. Se estava confiante, mais ainda fiquei. Nunca me passou pela
cabeça quaisquer dramas. O médico e toda a sua equipe foi de opinião,
e de acordo com o relatório dos exames anteriores, que fosse feita a
extração do nódulo. Contatei o meu médico assistente, que
concordou com a decisão dos colegas.
Dei entrada no hospital no dia 8
de dezembro de 1999, e no dia seguinte fui operada. Na véspera da
operação lá estava o meu amigo médico, que com a sua presença, me
inspirava confiança. É uma pessoa muito humana e carinhosa. Fiquei
mais confiante, pois nestas situações sou muito medricas! Já
vestido para operar, ele nos últimos minutos antes da operação
esteve comigo a encorajar-me e desejar boa sorte. A sua presença foi
humanamente extraordinária. Fui operada, tudo correu bem, nunca tive
dores. Ao terceiro dia já estava em minha casa, bem disposta.
Entretanto o nódulo foi enviado para análise. A minha vida correu
normal. Passei o Natal e o Ano Novo com meus filhos e netos.
Janeiro aproxima-se, um tanto frio e cauteloso. Talvez por volta do
dia 9 de Janeiro, quase ao entardecer, ouvi o telefone. Atendi e
fiquei feliz ao ouvir a voz do meu querido médico, perguntou-me como
tinha passado as festas, e a conversa prolongou-se amigável, eis senão
quando ele me diz:- amiga, temos que lhe tirar a mama. Só consegui
dizer; desculpe doutor, vou desligar. Depois daquele telefonema creio
que me tornei a criatura mais infeliz, à face da terra. Foram quatro
dias que mergulhei numa melancolia. Não quis ver ninguém. Não era
propriamente o que me ia acontecer, mas aquilo que me aconteceu.
Em
dia determinado, fui para o hospital era um autêntico autômato, sem
vontade própria. Mesmo assim alheada do que me rodeava, nunca dei ao
problema o peso que ele na realidade tinha. Fiz todo o ritual da
preparação para ser operada, e às duas horas do dia 11 de Janeiro
de 2000, entrava no bloco operatório. O tempo que antecedeu vou
descrevê-lo. Acordei cedo, tinha dormido uma noite tranqüila, pois
para isso tomei um tranqüilizante. Tomei um banho e voltei para o meu
quarto. Isto passou-se no hospital. Em determinada altura, entrou no
meu quarto uma pessoa que eu logo deduzi que seria o médico.
Pronunciou o meu nome (estou a viver tudo como se fosse hoje) eu
respondi; nunca o tinha visto, não se mostrou simpático. Disse-me:-
a senhora sabe o que vai fazer? As suas palavras assemelharam-se a
algo de fatalista. Assinei o papel que o médico me entregou, ele saiu
e fiquei com uma sensação de vazio. Sentada na cama, perdida em
cogitações, alguém me toca. Era o assistente do meu médico, para
me dar uma palavra de conforto, pois o mesmo estava retido na cama com
uma forte constipação . As suas palavras foram de encorajamento e a
sua simpatia, deu-me um pouco de ânimo. Era chegada a hora da
verdade! Não estava nervosa, jamais esquecerei este dia, já no
bloco operatório tive uma sensação extraordinária, pois lá
estavam enfermeiras que tinham sido minhas alunas, dando-me uma força,
ou melhor, fez-se em mim uma luz, posso dizer que com tanta manifestação
de simpatia e coragem, fiquei eufórica e já não dei por nada.
Voltei para o quarto às 18:30 hrs., segundo me foi dito. Lembro-me
duma imagem muito tênue da presença da minha filha, mas o sono era
tanto que voltei a adormecer, só acordei no outro dia de manhã. Uma
Dórila totalmente diferente. Encarando e aceitando tudo com
naturalidade, até achei que nesse dia, o sol era mais brilhante. Bem
disposta comecei a sentir a vida de outra maneira com otimismo, sem
lamentações e dores, no dia seguinte levantei-me, fiz minha
higiene, passei pelos corredores, conversei. Era outra. Fui tratada
com muito carinho por médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar do
hospital. Saí dois dias depois. Os dias passaram, estava bem
disposta, saindo, indo às consultas de rotina. Era tempo de entrar no
processo da quimioterapia. Não é nenhum bicho de sete cabeças.
Estava informada de tudo pelo meu médico, que me apresentou a médica
oncologista. Seria ela que iria dar continuidade ao trabalho, e também
fazia parte da equipe. Fui apresentada às enfermeiras da unidade de
quimioterapia, que além de serem carinhosas, são ótimas
profissionais. Esclarecida de todo o processo, fui acompanhada por uma
psicóloga. Talvez tivesse Deus a ajudar-me. O que vos digo é que não
tive os tais sintomas que o tratamento dá. Por isso, dou graças a
Deus. Fiz o tratamento de quimioterapia, fui submetida no final à
avaliação e passei nos exames. A minha disposição passou a ser ótima,
olhando a vida com amor, e dando um valor muito grande a quem sofre, e
não consegue reagir. Quando ia às sessões de quimioterapia
encontrava as pessoas tão desmoralizadas, abatidas, como se fosse o
fim. Então eu pensava: quanto eu gostaria de dar um pouco da minha
boa disposição e vontade de viver. Aquilo que eu tinha imaginado que
fazia falta, tornou-se realidade.
Um dia encontrei alguém de bata
branca a dar apoio aos doentes. Fui para casa e comecei a pensar: eu
podia repartir a minha experiência com aquelas pessoas, tão
carenciadas duma palavra de encorajamento. Terminei o meu tratamento.
Fui indagar como poderia fazer parte de ação tão meritória como é
"O Voluntariado", de "vencer e viver".Não foi difícil.
Infelizmente não há muito quem queira dar um pouco da sua experiência.
Fui admitida e no dia 18, de
Julho de 2000, foi o meu primeiro dia de serviço na unidade como
voluntária. Movida dum espírito de força, coragem, o querermos
dar-nos aos outros para lhe dar uma melhor qualidade de vida, foi o
que me levou para O Voluntariado. Quero deixar o meu testemunho, para
que todos ou todas aqueles que passaram pelo mesmo problema, saibam
encarar de fronte erguida e com pensamento positivo. Tudo será
melhor. Aqui estou eu, para vos dizer bem alto: não desanimem, sigam
o meu exemplo, Deus está do nosso lado
Um
grande abraço.
Dórila
Mar / 2001
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