Em 1999, fiz uma visita de rotina à minha ginecologista, para os exames preventivos. Até aquele momento, nem mesmo um nódulo tinha aparecido. Por insistência do meu marido, pedi à ela para fazer uma mamografia, apesar dela não indicar uma mamografia naquela idade: eu tinha 34, às vésperas de 35 anos. Fiz o exame, e foram encontrados dois nódulos na mama direita, medindo 0,8 cm e 1,5 cm.

Fui então encaminhada para a cirurgia, a fim de fazer uma biópsia, mas sempre acreditando não ser nada. Feita a análise dos nódulos, veio o diagnóstico: era mesmo câncer de mama.

Claro que meu mundo caiu naquele momento, o meu e de meu marido, que apesar de ser médico, também não tinha conhecimento até aquele momento de como as coisas transcorreriam. Nossas conversas baseavam-se em como ele cuidaria de nossas 2 filhas, na época com 8 e 2 anos, quando eu já não estivesse mais aqui. Foi tudo muito sofrido. Fiz então uma consulta com um mastologista, imaginando que seria feita uma quadrantectomia, mas no mesmo momento ele afirmou que o caso era de mastectomia radical, pois a existência de dois nódulos indicava que provavelmente haviam outros, o que se confirmou depois da mama retirada. Haviam vários pontos com células cancerígenas e 4 gânglios comprometidos. Todos foram retirados. No ato da cirurgia foi feita a reconstrução, com tecido e gordura do meu abdome, e o resultado foi muito bom.

Fiquei uma semana no hospital, drenos durante mais ou menos quinze dias, muitos e muitos curativos.Terminada essa fase, partimos para o tratamento quimioterápico. Eu não conseguia me conformar com aquilo, tudo caminhava sempre para o tratamento mais radical. Chorei ininterruptamente durante a primeira sessão, não conseguia aceitar estar passando por isso.

Meu marido quase não trabalhava, para poder acompanhar toda essa fase pior, minha mãe ajudava como podia com as crianças, ficando em casa para coordenar o bom andamento de tudo, e eu temia demais perder o meu cabelo, sentia um grande mal-estar durante pelo menos 5 dias após a quimio. Foram quatro sessões com intervalo de 28 dias de uma medicação mais potente, e depois 8 sessões semanais de um medicamento mais suave, que causava mal-estar somente durante sua administração.

Meu cabelo não caiu, apesar de ter perdido muitos fios. A rotina se baseava em  exames constantes para a contagem de glóbulos; fui fazendo também um tratamento paralelo, tomando muitas vitaminas em cápsulas e soro, semanalmente, o que penso ter ajudado bastante para agüentar a carga pesada dos medicamentos. 

Em resumo, foram seis meses de tratamento, de junho a dezembro de 1999. Acho que enfrentei bem a situação, as forças vêm não sei de onde, talvez da vontade de ver minhas filhas crescerem, e por acreditar que elas não saberiam viver sem mim. Tive o consolo e o apoio de todos à minha volta, de alguns mais, outros menos, mas sempre uma torcida positiva. Em casa, no convívio social, tentei não me deixar abater, levar uma vida normal, fazer tudo, como sempre.

Os desabafos aconteciam sempre à noite, quando só o meu marido estava comigo. Rezei muito, tive e tenho muito medo do que possa acontecer, mas tento não pensar nisso. Faço acompanhamento a cada três meses, com exames completos e tomo o Raloxifeno, pois não me dei muito bem com o Tamoxifeno.

Minha vida é completamente normal e eu quero vivê-la intensamente, até quando Deus me deixar viver...Nós, que passamos por isso, com certeza nunca conseguiremos esquecer. Tudo é muito sofrido, e impossível de ser apagado da mente. A mastectomia é uma violência, não deixa de ser uma mutilação, apesar de tudo o que é feito para amenizar, mas acredito que nada seja em vão.

Sabe aquela história das "Pegadas na Areia", onde a pessoa pergunta a Jesus por que nos piores momentos de sua vida não aparecem as pegadas lado a lado? Ele responde que naquele momento o estava carregando no colo, e eu tenho certeza que isso aconteceu comigo, fui carregada no colo por bons médicos, pela minha família, pelos meus amigos, porque Ele estava sempre presente, e eu senti Sua presença naquela noite fria no hospital, em que eu não dormi e chorei a noite toda, esperando o dia amanhecer para ser operada logo cedinho, sem saber ao certo o que ia acontecer comigo, e qual seria o nosso futuro.

Fico sempre tensa com a proximidade dos exames, ansiosa pelo resultado, mas sempre confiando que nada mais esteja por vir. Talvez quando os cinco anos tiverem passado, tudo melhore. O tempo é sábio e um dos melhores remédios. Temos que confiar que o pior já passou, está cada vez mais longe, e foi somente uma fase difícil.

Obrigada a todos os que convivem comigo, obrigada por poder escrever sobre isso. Falar bastante, ter o máximo de informações, trocar experiências, enfim, tentar esgotar o assunto, com certeza ajuda muito.

Um grande beijo e força para todos nós,

Eliane

Nov/2001

 

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