|
Obrigada por esta página. Ela ajuda muito, e os depoimentos nos fazem
sentir próximas das outras mulheres que passam pelo problema. Me
identifiquei em várias situações, como o medo, a incredulidade, a
revolta, sensação de uma grande rasteira da vida.
Tenho
45 anos, e fui mastectomizada em novembro de 2000, com reconstrução
imediata. Fiz isto em Campinas, com um cirurgião super competente.
Tinha um nódulo de 3,5cm, que o levou a optar pela mastectomia
radical.
Meses
antes, tinha percebido uma pequena alteração na mama, e procurei
este médico, que pediu uma mamografia e um ultrassom das mamas. Fiz
na minha cidade, pelo convênio, onde a médica que solicitou me
garantiu que a mamografia era suficiente para detectar qualquer
problema. A mamografia não acusou nada, e eu não voltei ao
ginecologista de Campinas, pois estava vivendo um momento profissional
excelente, com viagem marcada para a Inglaterra onde participaria de
um Congresso Internacional, mostrando inclusive meu trabalho de
pesquisa (sou bioquímica e estava fazendo pós-doutorado).
Sempre
ouvi dizer que o câncer de mama era comum em pessoas deprimidas e
solitárias, mal resolvidas, ou hereditário. Quanta bobagem... Não
me enquadro em nenhuma das características dos chamados grupos de
risco. Sem casos na família, tenho duas filhas na pré- adolescência,
sou casada com um super companheiro e realizada profissionalmente.
Magra, praticante de esporte, hábitos alimentares saudáveis, não
fumante e, sobretudo, feliz.
Isto
é claro, antes do diagnóstico do câncer. Voltando da Inglaterra,
tinha ainda uma série de compromissos, entrega de relatórios, seminários,
etc., e só voltei ao meu ginecologista no final de outubro, portanto
7 meses depois.
Começou
o meu calvário. Ele ficou muito irritado com o meu comportamento, mas
eu insistia no resultado da mamografia. Ele queria o ultrassom que a médica
não quis solicitar. Quando me examinou, percebeu a extensão do
problema. O nódulo era difuso e parecia para mim uma fibrose, pois
minhas mamas eram muito densas, o que escondeu o nódulo maligno na
mamografia.
Meu
mundo desabou. Ele me mandou fazer uma punção na mesma hora com o
ultrassom necessário, até mais importante que a mamografia em
mulheres com menos de 50 anos e mamas densas (só soube disso depois).
O fato é que perdi preciosos 7 meses, o que me fez ficar com um tumor
ductal invasivo classificado como T2.
Não
houve contaminação de gânglios linfáticos, o que de início me
animou, porém outros componentes como tamanho do tumor, e não ser
sensível a estrogênio (receptor negativo) me causa muita insegurança.
Fiz quimioterapia, e por ser profissional da área conheço cada
droga, como agem. Meu cabelo não caiu, e continuei trabalhando
normalmente, menos nos dias pós quimio, pois tinha muita náusea.
Optei em fazer a quimio com o oncologista indicado pelo meu médico,
no próprio consultório de ambos.
Meu
marido me acompanhou em todo esse processo, ficando junto no
tratamento. Minhas filhas ficaram sabendo de tudo, ficaram muito
assustadas, porém amadureceram e são maravilhosas, me dando grande
apoio. Minha felicidade, entusiasmo e gosto pela vida, entretanto,
desapareceram. Faço análise desde janeiro, porém ainda choro todo
dia.
Fiquei
muito abalada da forma como as coisas aconteceram. Me culpei muito por
ter confiado tanto em dados e em um exame, mas quem quer pensar em
doença quando tudo parece maravilhoso? Pensei em processar a médica
do convênio, que possivelmente quis economizar não pedindo o
ultrassom que teria sido revelador, porém penso que nada vai mudar.
Acho que todas as mulheres devem ser alertadas para não confiar em um
único exame quando se trata de nódulos, pois tenho visto muito erro
médico e o tempo é fundamental quando se trata esta doença.
Tenho
apoio da minha família, amo demais minhas filhas e meu marido, e
tenho medo de deixá-los caso a doença retorne. Isso me deprime
muito. Tenho lutado bastante, sempre fiz opção pela vida e
quero novamente vivê-la de forma plena.
Procurei
forças na religião, em Deus, porém sinto que minha fé ficou muito
abalada. Por outro lado, sei de muitas pessoas que estão bem e
conseguem viver com qualidade, apesar do medo que é comum em todas nós.
Isto me dá um certo ânimo, mas a tristeza e o sofrimento ainda são
imensos.
Acho
necessário ainda uma grande campanha de conscientização,
principalmente em relação à minoria dos ginecologistas que, muitas
vezes, não conduzem bem o diagnóstico.
O
mais importante, porém, é saber que não estamos sozinhas.
Fátima
Jun / 2001
|