COMO REAGIU?

Tive o diagnóstico de mama fibrocística aos 18 anos, por essa razão sempre fiquei atenta as minhas mamas. Nunca pude tomar anticoncepcional oral em razão dos vários nódulos espalhados por ambas as mamas.

Casei, tive dois filhos e amamentei por mais de 8 meses cada um deles.

Aos 42 anos passei por uma fase de inquietação e ansiedade. Fui ao médico que era meu ginecologista há mais de 20 anos, tinha feito o parto dos meus filhos e acompanhou todo o desenvolvimento hormonal do meu corpo.

Durante a consulta, conversamos muito sobre o que, possivelmente, estaria acontecendo comigo e ele me receitou uma medicação denominada "Climene" que eu deveria tomar por 3 meses. Sai de lá, passei numa farmácia e comprei a medicação recomendada. Ao chegar em casa, como tenho o hábito de sempre ler a bula dos remédios, me espantei ao ver que se tratava de um contraceptivo oral, medicação que me havia sido recomendada nunca tomar pelo meu próprio médico e razão pela qual após o nascimento do meu segundo filho, liguei as trompas para evitar gravidez. Mesmo assim, comecei a tomá-lo.

Já no primeiro mês de uso do remédio, senti as minhas mamas muito doloridas e inchadas além do normal, mesmo para o período pré-menstrual. Conversei com uma amiga que tomava regularmente esse Climene e perguntei se ela também sentia essas alterações, ao que me respondeu "não". Fiquei preocupada e mantive as mamas, sistematicamente, sobre meu controle

Após o término da segunda caixa resolvi parar de tomar, mas as mamas mantiveram os mesmos sintomas.

Percebi então, que um dos nódulos que eu estava acostumada a palpar estava mais duro e se destacava dos demais. Fiquei apavorada e voltei ao meu médico para nova consulta, Ele procedeu ao exame clínico normal para o caso e me tranquilizou dizendo que eu já conhecia o meu problema, que uma outra medicação resolveria o caso, mas que, para que ficasse calma, pediria uma mamografia. Quando a consulta terminou, eu estava num conflito enorme entre a alegria e a dúvida, por que algo internamente me dizia que se tratava de um problema mais sério. Eu estava profundamente ansiosa. Fiz o exame imediatamente e quando o resultado ficou pronto não me contive, li o laudo médico ainda na porta da Clínica de Radiodiagnóstico. Não me lembro de ter sofrido tanto em outra ocasião da minha vida. Chorei muito, fiquei desnorteada, parecia anestesiada! Eu me perguntava porque isso tinha que acontecer comigo? Minha mãe não teve câncer de mama, minha avó também não, como isso podia estar me acontecendo?

Meus filhos estavam com 10 anos o mais velho e 9 anos o caçula. Fui para casa esperar o meu marido chegar. Quando ele leu, me abraçou e choramos abraçados por muito tempo. Decidimos que procuraríamos outra opinião médica. Fomos a São Paulo consultar um Mastologista,o diagnóstico foi o mesmo. Fomos a Campinas e o diagnóstico continuava o mesmo. Foi quando percebemos que o diagnóstico não mudaria, o que teria que mudar seria a nossa atitude diante do problema.

Procuramos então, um mastologista em nossa cidade, indicado por um médico do Hospital Antônio Prudente.

Da data da confirmação do tumor a data da cirurgia passaram-se 19 dias de angústia intensa para todos da família que sofreram e acompanharam passo a passo as nossas decisões. Só não permiti que os meus filhos ficassem sabendo, eu não conseguiria lidar, com coragem, com as emoções deles.

Fui preparada para uma mastectomia radical embora já tivesse contratado um cirurgião plástico para o caso de ser um quadrante e houvesse a possibilidade de reconstrução imediata só da mama afetada. Naquele momento eu rezava muito, todos rezavam muito pedindo que me fosse dada uma nova chance. E foi com esse espírito que eu me internei, agarrada a um terço que só me foi tirado das mãos quando já estava anestesiada no centro cirúrgico.

Ao abrir os olhos, lembro-me de ouvir a minha irmã dizer que tinha sido um quadrante e que a minha mama estava no lugar, mas eu ainda não conseguia articular nenhuma palavra Quando fiquei totalmente lúcida vi que o tumor já havia sido retirado e eu estava viva! Isso era muito importante! Eu tinha conseguido vencer a primeira etapa!

Venci a segunda etapa quando após 10 dias com o dreno, ele foi, finalmente, retirado e tive uma mobilidade maior do membro superior direito, embora sentisse muito medo para movimentá-lo. Apesar de muito satisfeita, eu sabia que faltava ainda muito tempo e muitos degraus a serem superados.

Nessa data o meu oncologista prescreveu a radioterapia que iniciei imediatamente. Senti durante o tempo do tratamento algumas náuseas e um pouco de dor de cabeça. Vi a mama em tratamento escurecer a pele e eu aplicava, diariamente, hidratantes. Foi com as enfermeiras da radioterapia que eu consegui aprender os exercícios que realmente recuperaram, totalmente, os movimentos do meu braço direito.

Já me sentindo mais confiante, até por que estava tomando um anti-depressivo, retomei ao trabalho. Venci a terceira etapa!

Agora faltava ainda a quarta e a mais difícil a ser superada: a quimioterapia.

Quando o médico me encaminhou para o setor, eu senti um calafrio percorrer o meu corpo. Chorei muito porque ia perder os meus cabelos, mas ao mesmo tempo me lembrava que era mais um caminho para a cura e isso me animava e me dava muita esperança!

Comecei o tratamento e me foi explicado que só um pouco dos cabelos cairiam, por que a quimioterapia indicada para o meu caso ( um carcinoma de 1,3 cm, com 20 linfonodos negativos) era mais leve.

Na primeira sessão eu estava muito tensa. Quando terminou, o médico me receitou uma injeção de Superan, que eu deveria tomar após cada sessão, para controlar os sintomas das drogas injetadas no meu organismo. Recomendou também água de côco e que tomasse muito liquido durante todos os dias. Tive enjôos, ânsia de vômito, um gosto ruim na boca, era um mal estar generalizado. Fiz seis ciclos de 21 em 21 dias, sempre acompanhados pelos exames de sangue que me deixavam profundamente ansiosa e com muito medo do resultado. Terminei a última sessão com uma vontade imensa de comemorar, apesar dos enjôos.

Venci essa etapa também! Todos da família comemoravam!

Desde então, passei a fazer exames de controle do câncer e tomar uma medicação oral chamada Tamoxifeno 20 mg por dia.

REAÇÃO DA FAMÍLIA:

Eu tive o apoio imenso do meu marido, ao qual sou eternamente grata por todas as horas em que me confortou, pelas suas lágrimas que formaram pares com as minhas e pelo amor que me dedicou nessa hora de tanto sofrimento.

Não tivemos problema de ordem sexual. Talvez eu tenha ficado inicialmente, mais inibida com medo de me machucar, mas ele foi sempre muito carinhoso e cuidadoso.

As nossas relações sexuais não foram abaladas, nem em frequência nem em prazer. Muito ao contrário, o meu marido me demonstrava claramente, que ele sentia a mesma atração sexual de antes da cirurgia, o que foi me deixando cada vez mais a vontade.

A minha família esteve presente em todas as dificuldades que enfrentamos, desde o choque inicial, cirurgia, fases dos tratamentos, sempre colaborando em tudo que podiam e isso contribuiu muito para a minha recuperação

REAÇÃO DOS AMIGOS:

Tive dificuldades com os meus amigos no tocante aos comentários que fizeram e que não me ajudaram em nada, muito ao contrário, me colocaram mais deprimida.

Gostaria que tivessem tido mais respeito com a minha dor.

Eu me sentia diferente, como se todos olhassem para a minha mama. Isso com o tempo foi passando.

O QUE MUDOU DENTRO DE MIM:

O que mudou dentro de mim foi a minha forma de ver a vida. Hoje eu a valorizo muito mais, não me aborreço com coisas sem importância, sou mais otimista em relação aos fatos e a minha própria existência.

Atualmente eu me critico menos. Sou mais permissiva e tolerante com tudo e com todos que me rodeiam. Amo mais intensamente.

VIDA PROFISSIONAL

Continuo trabalhando normalmente. Busquei um novo ambiente de trabalho, onde uma nova pessoa pudesse começar sua nova vida.

COMO ME SINTO AS VÉSPERAS DOS EXAMES:

Sinto-me muito ansiosa. Cada exame tem o seu grau de dificuldade a ser vencido. Não tem o mais fácil ou o mais difícil, todos geram muita expectativa, ansiedade e angústia.

FÉ INTERIOR:

A minha fé e a de minha família foi sempre muito grande. Acho que foi e será sempre um bálsamo para cicatrizar todas as feridas.

Sem a minha fé não teria superado todos os sofrimentos porque passei e da forma que passei. Agradeço a Deus por estar comigo em todas as horas da minha vida. Sentir a presença DELE me dá forças para continuar a lutar.

Março/2000

 Selecione ao lado a opção desejada.