|
Descobri
minha doença em 16/05/1999, numa chuvosa noite de domingo, ao
examinar-me. Levei um tremendo choque, pois tive certeza que
tratava-se de um câncer de mama . Meu marido achou que eu estava
sendo exagerada, e que poderia ser uma displasia mamária, já que
tive a vida toda descontrole hormonal, operei os ovários em 1986, e
fiz muito tratamento para engravidar (em vão). Chorei a noite toda,
imaginando as conseqüências da doença na minha vida, na de todos
os que me rodeiam, principalmente meu marido e minha filha
(adotiva).
Ao
amanhecer, procurei o meu ginecologista, que solicitou uma
mamografia urgente, cujo laudo veio atestando um nódulo suspeito
que deveria ser submetido a um ultrassom e biópsia. No dia da
mamografia encontrei outro nódulo perto da axila direita. Minhas
suspeitas se transformavam cada vez mais em certezas. Mais choro
debaixo do chuveiro. Só após o ultrassom fui encaminhada para o
mastologista que me operou. Consultei-me em 28/05/99, foi uma
consulta extremamente prática e segura. Ele perguntou-me o que eu
esperava que fosse, eu respondi o que achava, e ele me perguntou se
eu estava preparada para esse diagnóstico, no que eu disse que sim
(e estava mesmo, mas só para o diagnóstico). Após examinar-me e
ver meus exames, ele foi categórico em afirmar que tratava-se de câncer
de mama, e que o nódulo perto da axila poderia ou não já ser metástase,
apesar do nódulo mamário ter só 2 cm. Até esta parte da
consulta, tudo bem. Foi quando ele colocou para mim a
"possibilidade" da mastectomia. Desabei. Tentei muito me
controlar, mas foi difícil. Era um misto de desespero, indignidade,
medo. Achava que aquilo não estava acontecendo.
Logo
EU, que sempre me examinei, que sempre corri por todos na família,
que sempre fui o porto seguro de tanta gente ... Eu esperava, no máximo
uma quadrantectomia. Ele explicou-me que eu poderia optar por uma biópsia
prévia nos nódulos – então após o resultado seria internada
novamente já sabendo qual o tipo de cirurgia que seria feita.
Neguei, preferi acabar logo com essa angústia e optei por ir direto
à cirurgia, fazer biópsia de congelação para o médico na hora
ver o melhor a ser feito, e pelo ponto de vista médico essa também
foi a melhor escolha. Meu médico perguntou-me se eu tinha religião
(sou católica praticante) e disse que eu fosse à igreja agradecer
a oportunidade de ter encontrado minha doença a tempo de tratá-la.
Mas naquele dia não houve acordo. Chorei da saída do consultório
até conseguir dormir, com raros intervalos. Meu médico passou-me
tanta segurança que sequer cogitei em consultar outro médico. Foi
extremamente importante para mim.
Realizei
os exames pré-operatórios, internei-me dia 09/06/99, para operar
no dia seguinte. Ao ir tomar banho para vestir a camisola cirúrgica,
às 5:45 hrs, desejei que tempo parasse ali. Era meu último banho
"inteira", ao mesmo tempo era o último banho com
"aquilo" no meu corpo. Rezei muito, entreguei minha vida e
meu recomeço a Deus. Pedi que Ele cuidasse da minha família caso
morresse, pedi que abençoasse meu médico, o anestesista e toda
equipe. Nunca me senti tão triste e sem o domínio de uma situação
difícil.
Ao
chegar ao centro cirúrgico, fui recebida por uma moça que tinha
sido minha funcionária anos atrás. Ao saber que eu ia ser operada,
ela debruçou-se sobre mim e chorou muito. Tive vontade de gritar. A
última coisa que eu precisava naquela hora era alguém chorando
como se eu estivesse morta.
Demoraram
40 minutos para pegar a minha veia (sempre foram péssimas).
Adormeci. Ao acordar não conseguia ver como eu estava, e ao ver meu
marido ele avisou-me que estava mastectomizada; foram encontrados 2
nódulos na mama e isso inviabilizou uma quadrantectomia mesmo que a
axila fosse negativa. Fui levada para o quarto e pensei: vou começar
a mexer o meu braço, vou me recuperar, nada vai me abalar... até a
manhã seguinte, quando meu curativo foi retirado e fui encaminhada
para o banho. A funcionária que o retirou saiu correndo do quarto e
fiquei com minha irmã, a sós. Fui até o espelho e olhei bem como
estava. Vi que a cicatriz estava boa, seca, sem sinais de infecção,
meu braço se mexia bem. Também vi que ela era enorme (do meio do
meu peito até além da axila), vi que estava mutilada, feia,
deformada, mas viva. Não sabia, neste primeiro banho de minha nova
situação, se o que me molhava era a água ou o meu choro. Foi o
pior momento na minha internação. Minha irmã não falava nada, só
me abraçava e me ajudava. Naquela hora eu pensei que seria mais prático
eu ter morrido. Tratei de tentar me animar.
Recebi
algumas visitas, todos se impressionavam de como eu estava bem. Na
verdade algumas delas estavam mais abatidas e deprimidas do que eu.
Comecei a ver como as pessoas não sabem lidar com o câncer e seus
portadores.
Tive
alta dia 12/06/99, sábado, aniversário do meu marido. Lá fui eu e
meu dreno para casa. O dreno (instalado 4 dedos abaixo da cicatriz)
tinha que ser lavado 4 vezes ao dia e isso era feito pelo meu marido
ou minha irmã; chegou a entupir e infeccionou o local de onde ele
saía. Incomodou demais, a única dor que realmente senti. Ele era
chamado de cachorrinho, e admito que meu cachorro ficou enciumado
por causa da sacolinha que carregava sempre com o dreno dentro.
Melhorou quando aprendi a conviver com ele. Eu colocava um
esparadrapo fixando-o mais no meu corpo, para que ele não ficasse
pendurado, pois doía muito. Minha pele neste local ficou muito sensível,
eu sequer podia tirar a cola do esparadrapo por qualquer meio, que
queimava o local. Mas passou. Foi retirado 16 dias após a cirurgia
e nesse dia comprei minha primeira prótese. Me senti muito melhor.
Após sua retirada foram necessárias punções no local da
cirurgia, feitas no consultório médico por um bom tempo,
praticamente indolores.
Para
dormir, ajeitei-me melhor no sofá da sala, colocando um colchonete
sobre ele e deitando. Uma noite meu braço direito ficou pendurado e
acordei com uma dor muito forte. Um comprimido de Voltaren e muita
paciência foram necessários.
Os
banhos foram com assessoria da minha mãe ou minha irmã por 20
dias, eu precisava sentar em uma cadeira plástica dentro do box, e
pouco fazia. Me sentia deprimida e nunca me senti tão dependente e
tão impotente. Os pontos foram sendo retirados aos poucos, e com 20
dias após a cirurgia os últimos foram retirados. Na cicatriz houve
um local onde a cicatrização aconteceu de dentro para fora, mas
tudo ficou bem.
Ainda
em junho chegou o resultado do meu exame anátomo patológico:
carcinoma ductal invasivo; foram retirados 15 linfonodos da axila
direita, e todos já estavam com metástase. Fiquei arrasada e com
muito medo de já ter outra metástase perdida no meu corpo. O médico
que me atenderia para a quimioterapia ia sair de férias, e fui
encaminhada para uma médica que me atendeu de maneira hostil e
maldosa, chegando a dizer que pediria um ultrassom de abdome
superior para ver "em que estado estava o meu fígado", e
uma cintilografia óssea para ver "se eu já tinha algo nos
ossos". Foi talvez a minha pior queda, pois houveram outros
comentários que me levaram a crer que eu não estava tão bem
quanto pensava, pois eu sabia a necessidade desses e outros exames,
mas o que me chocou foi a maneira como ela colocou as coisas para
mim, sem ao menos ter me encostado a mão para realização de um
exame físico. Toda confiança que o meu médico colocou dentro de
mim, em meu tratamento e recuperação ruíram, chorei mais do que
nunca. Meu marido estava junto na consulta (como sempre) e não
sabia como me consolar após o que ouvimos. Meu médico também não
gostou nada do que houve. Graças a Deus, consegui consulta com o médico
certo, que após realizar um minucioso exame físico, e solicitar os
mesmos exames citados pela médica, porém explicando que são de
rotina, prescreveu ainda 2 transfusões de sangue (estava anêmica
– tal fato foi desconsiderado pela médica anterior), vitaminas à
base de ferro, para iniciar a quimioterapia em 26/07/99 da seguinte
forma: 8 sessões, 1 a cada 21dias.
As
2 primeiras sessões foram razoáveis, mas a 3ª e a 4ª foram terríveis:
as náuseas, vômitos e mal estar eram tão grandes que não saía
da cama por 3 dias, não conseguia beber nem água, muito menos
comer. Algumas unhas das mãos escureceram devido a uma das drogas
que tomei, e passaram a crescer lentamente, apareceram pintas que não
tinha e perdi 90% do meu cabelo em 3 dias. A queda começou 16 dias
após a 1ª quimio. Foi chocante, apesar de já esperar por isso, e
comprei uma peruca. Perdi meus pêlos pubianos, da perna, braços, cílios
e sobrancelhas. Como sempre passava petróleo de arnica no couro
cabeludo, reforcei com babosa e meus cabelos logo começaram a
crescer, mas voltaram a cair após 17 dias da 5ª quimio, que
felizmente foi composta por outras drogas, que como efeito colateral
imediato só causou um pouco de dor no corpo. A quimioterapia, para
mim, foi uma experiência muito pior que a mastectomia no aspecto físico,
seria ótimo se ela não fosse necessária, ela foi um verdadeiro
transtorno. Graças a Deus não precisei de radioterapia – uma
coisa a menos. Contudo, os casos que vi quando ia tomar a quimio de
metástases em pacientes que operaram há tempos, me assustavam.
Ficava com medo que acontecesse comigo. Existiram vezes que senti
um verdadeiro pânico, não conseguia ser racional, enxergar
os avanços da medicina atual e via minha fé indo pelo ralo. Isso
ainda acontece, mas com pouca freqüência, o tempo ajuda muito,
realmente. Quando tenho consulta com o médico que me operou saio de
lá renovada, confiante. Quando tenho exames a fazer, nem eu me agüento
de tanto nervoso; são noites sem dormir e muito medo.
Sinto
que meu interior ficou extremamente abalado. Sempre fui confiante e
forte; me senti fraca durante muito tempo, sensível, evitava me
deprimir, embora fosse difícil. Enquanto fiquei de licença médica,
me sentia bem, menos exposta. Quando voltei a trabalhar, senti na
pele o preconceito e a discriminação. Fiquei chocada, pois
esperava atitudes mais inteligentes de pessoas que se julgam
produtivas. Minha palavra e meu serviço foram colocados em dúvida
diversas vezes, acompanhados por comentários desagradáveis, meu
desempenho foi tantas vezes questionado que beirava o ridículo, já
que vinham de pessoas “esclarecidas e inquestionáveis” perante
a sociedade. Até hoje não consigo compreender o porquê dessa
atitude pequena e desumana, e cada vez mais percebo a frieza e
insensibilidade das pessoas “sadias” que nos cercam. Nunca quis
privilégios, não acho justo. Mas esperava justiça, ainda mais num
lugar onde teoricamente ela é praticada. Foi decepcionante, mas dou
Graças a Deus por só meu corpo ter ficado doente. Espero que essas
pessoas também tenham a chance de se curar...
Vivo
em casa uma vida confortável, sou muito ajudada e apoiada, minha
psicóloga é uma amiga que sempre me ouve. Sempre pensei em quem não
tem esse privilégio.
Minha
vida sexual só não era melhor por minha culpa, meu marido encarou
de frente minha doença e nunca me rejeitou, muito pelo contrário.
Estava pouco à vontade com minha aparência e dificultava as
coisas, isso ainda não é fácil de encarar e conviver, mas essa
dificuldade está se diluindo com o tempo.
Tenho
muito apoio e carinho por parte do meu marido (exemplar), minha irmã
e minha mãe são incansáveis e se revezaram para cuidar de mim
(minha mãe mora em São Paulo e minha irmã no interior). Vi o lado
egoísta daqueles que quiseram se poupar de ver meu sofrimento e
ignoraram a minha dor, não recebi telefonemas que considerava óbvios,
e fui surpreendida por pessoas que se comoveram e ficaram do meu
lado. Amigas que se ofereceram e que ficaram com minha filha para
que ela saísse um pouco da minha casa. Pessoas que eu senti que
podia contar, e com quem eu achava que contaria, não enxergo até
hoje nem por um binóculo. Vi meu marido ficar só na hora que ele
também precisava de alguém. Recebi visitas importantes, como uma
amiga da minha irmã, mastectomizada há nove anos, que mora no
interior e veio até a minha casa só para conversar comigo, e
telefonemas de outras em igual situação.
Nunca
esquecerei cada momento triste, mas também não esquecerei o lado
solidário e carinhoso de mulheres e homens que, mesmo nunca tendo
me visto, preocupam-se comigo até hoje, rezam por mim e sofreram
com quem sofreu por mim. Nunca vou poder agradecer o suficiente a
essas pessoas, que inconscientemente ajudaram-me tanto a repensar
meus valores tão arcaicos, minhas prioridades absurdas. Reformulei
minha vida, desde uma alimentação mais saudável até com quem
gastar meu tempo e minhas energias. Agradeço a Deus quando deito e
quando levanto, peço a Ele que me cure totalmente, e que ajude as
pessoas que sofrem de câncer em geral. Peço que olhe por todos
aqueles que longe ou perto, conviveram e se sensibilizaram com meu
sofrimento. Eu nunca vou esquecer cada um deles.
Hoje
posso dizer que estou muito bem. Terminei em dezembro de 1999 a
quimioterapia (meu presentão de Natal), um mês depois da cirurgia
já tinha total mobilidade do meu braço, não uso peruca desde o início
de mar/2000, meus cabelos estão enormes (elogiados até por quem não
sabe o que passei), vieram fortes, embora fossem lisos, renasceram
encaracolados – mas após 2 anos começam a dar outro jeito. Tenho
ainda meus maus momentos, passei por alguns sustos com “suspeitas
que Graças a Deus não passaram de suspeitas”, mas confesso que
na maior parte do tempo esqueço o que passei. Desenvolvi,
aparentemente de modo espontâneo, um discreto edema no braço que
incomoda, e é contornado com fisioterapia e cuidados.
Estou
bem, e isso é que importa. Sou chamada de forte por várias pessoas
e acho que sou mesmo. Só quem é forte consegue sobreviver ao que
acontece por dentro e por fora de quem teve ou tem câncer de mama.
Ainda sou surpreendida pelo medo, pavor e choro em algumas noites
chuvosas de domingo, sinto que revivo minha triste descoberta. Estou
na expectativa de poder fazer minha reconstrução de mama, mas
serei cautelosa pois tenho que emagrecer.
O importante é que estou VIVA, para o mundo e
para eu mesma; sempre fiquei para trás em meus planos e perante o
mundo. Graças a Deus, tudo mudou ...
Laura
Maio
/ 2002
|