Não sei bem por onde começar, tamanha a minha dor. 

Na virada do milênio eu era a pessoa mais feliz do mundo! Tinha conseguido parar de fumar, após 23 anos de vício; estava com um corpo belíssimo e com muita disposição, como conseqüência de três horas diárias de ginástica. Além disso, estava muito bem com meu namorado, Marcelo, meu companheiro nos últimos sete anos. Apesar de morar sozinha, sentia-me muito querida e amada. Sou uma executiva de sucesso e vista por todos os que me cercam como uma pessoa muito forte e segura. Minha felicidade era tanta, que mal consigo descrevê-la...

Uma semana depois, em 07/01/2001, minha vida começou a tomar outro rumo e entrou em “queda livre”. Naquele dia, Marcelo me disse ao telefone que estava passando mal. Resolvi ir até sua casa e lá o peguei me traindo com outra mulher. Minha reação foi muito violenta. Bati muito, gritei muito, fiquei absolutamente descontrolada, a ponto de ser internada e posta para dormir. Depois daquele trágico episódio, Marcelo e eu nos afastamos. O que mais me surpreendeu foi a minha reação violenta, pois sempre fui altamente equilibrada e sensata. Fui tão humilhada, ferida e ultrajada, que não consegui segurar tanta dor, o que me levou a perder por completo o controle sobre meus atos.

A partir daquela data tornei-me uma pessoa muito triste, magra e abatida. Chorava diariamente, mas continuava a fazer ginástica e a trabalhar. Comecei a me tratar com uma psicóloga, pois eu realmente precisava de ajuda.

Duas semanas depois, descobri pelo auto-exame um pequeno caroço na mama direita. Achei que eu estava somatizando o meu problema emocional e que aquilo não seria nada sério. Mas para me tranqüilizar, no mesmo dia marquei hora na ginecologista, que requisitou uma mamografia e uma ultra-sonografia de mama. Eu nunca tinha feito tais exames, pois normalmente só se faz isso a partir dos 40 e ainda tenho 37 anos. Além do mais, na minha família nunca houve nenhum caso de câncer!

De qualquer forma, fiz os exames e minha ginecologista não gostou do que viu. Os dois exames sugeriam um problema mais sério, e foi identificado um segundo caroço, um pouco menor que o primeiro. A médica me encaminhou para um mastologista, e no dia seguinte lá estava eu, cheia de medo, às 7 horas da manhã para me consultar com o mastologista. Ele também não gostou do que viu e fez uma punção no caroço maior. Ainda naquele mesmo dia, também fiz uma biópsia no caroço menor. Tudo aquilo me assustou muito! Logo eu, fazendo uma biópsia ?? Isso não é coisa para quem tem câncer ?? Eu não tenho isso !! Câncer, comigo, só no signo.

Senti medo, precisava do meu companheiro, mas ele tinha me ferido demais... Marcelo ficou sabendo do que aconteceu através de sua mãe, uma pessoa maravilhosa e que muito me ajudou, mas acho que ele não acreditou que poderia ser uma coisa mais séria e foi viajar com os amigos para Angra dos Reis.

Sentia-me muito só, apavorada e triste. Comecei a desconfiar que para ele eu valia muito pouco, mas não tinha forças para reagir. Tirei férias no trabalho, que já estavam marcadas há tempos. Naquele mês de fevereiro Marcelo e eu iríamos para o Nordeste, conforme programado há vários meses... Isso, obviamente, se nada tivesse acontecido!

Na semana seguinte, o mastologista me telefonou informando que havia saído o resultado da punção e que tudo indicava tratar-se de uma formação maligna. Apesar de ainda estar faltando o resultado da biópsia, feita no caroço menor, fiquei completamente desnorteada, chorei muito e liguei para o Marcelo, vencendo todo o meu orgulho ferido. Afinal de contas, ele passou os últimos sete anos comigo, e com certeza não me abandonaria naquele difícil momento da minha vida. Ele sempre foi tão meu amigo... Marcelo demonstrou muita preocupação, e disse que me ligaria depois. Não ligou! Na verdade, ele foi viajar naquele fim de semana, pois já havia marcado um rafting com os amigos. Não acreditei que ele estava fazendo aquilo comigo... Enquanto Marcelo se divertia no seu rafting, eu chorava o final de semana inteiro, sem conseguir dormir ou comer.

Após o fim de semana, fui ao mastologista, que já se encontrava de posse do resultado da biópsia. Era câncer mesmo! Os dois tumores eram malignos, o que indicava a necessidade de retirada da mama.

Enlouqueci! Entrei numa lanchonete e chorei compulsivamente. Ainda não havia me recuperado do trauma de ser traída pelo Marcelo e a vida me dava mais essa rasteira? Consultei outros médicos, que confirmaram a necessidade da mastectomia. Fiz vários exames, incluindo cintilografia óssea. Fui perdendo mais peso e junto com ele minha segurança, felicidade, auto-estima, sexualidade e até mesmo minha identidade.

Marcelo finalmente resolveu ficar ao meu lado, o que me levou a acreditar que ele realmente gostava de mim. Pura ilusão! Fui operada dia 24/02/2001, sábado de carnaval e já na segunda-feira seguinte ele disse que gostaria de estar bebendo com os amigos ao invés de ficar comigo na minha casa! Naquele período minha mãe, que mora em outro Estado, veio me ajudar e ficou comigo por três semanas. Tive problema de necrose na região operada e até hoje, depois de quase três meses, cuido de uma ferida enorme, lavando-a e fazendo curativos três vezes ao dia. Isso demora muito a cicatrizar!

Uma semana após a cirurgia, pela primeira vez meu mastologista me deu uma boa notícia: não havia nenhum linfonodo comprometido, o que é um excelente resultado. Isso me animou bastante, mas a necessidade de fazer quimioterapia acabou comigo de uma vez!

Marcelo passou a me acompanhar ao mastologista, ao oncologista e nas sessões de quimioterapia, o que foi bom e me deu alguma segurança, mas em muito pouco tempo ele começou a sistematicamente me largar para sair com os amigos e beber, tendo me deixado várias vezes toda arrumada esperando para sair e se atrasando a ponto de perdermos a hora do cinema ou teatro. Uma vez marcou comigo num determinado horário e chegou três horas depois. Uma outra vez fui atrás dele num restaurante e ele, bêbado, me expulsou de lá, fazendo-me passar por um enorme constrangimento na frente de todos! Nunca na minha vida passei tanta vergonha! Saí daquele restaurante completamente humilhada, com febre, com cara de idiota e chorando como um bebê!    Muitíssimas vezes ele ligou dizendo que não iria à minha casa, pois preferia jogar futebol ou beber com os amigos. Quando eu reclamava, ele dizia que não estava fazendo nada errado e me chamava de “chata” e de “mala”. Rapidamente ele foi mostrando que eu valia muito pouco...

Sempre era um amigo diferente para tomar cerveja, futebol, academia, enfim, ele mostrava claramente que eu estava no fim da lista de prioridades. Aquela mulher feliz e segura deixou de existir e Marcelo contribuiu muito para isso. Até hoje custo a acreditar que ele tem sido tão desumano comigo, pois nunca lhe dei motivos para tamanha maldade, muito pelo contrário.

O mais engraçado de tudo isso é que ele não admite tais coisas. Diz que está tentando me ajudar. Seu egoísmo é tanto que ele não consegue enxergar nada além de suas próprias necessidades. Ele é o tipo de pessoa que se deixa iludir por festas, jogos, pseudo-amigos, belas mulheres, enfim, por mercadores de ilusões! Ele ainda não percebeu que essas coisas são efêmeras e enxergar tudo isso, ver o tipo de homem que Marcelo se transformou, tem doído demais.

Já fiz 3 sessões de quimioterapia e ainda faltam outras 3. Meu cabelo começou a cair duas semanas após a primeira sessão e a queda foi tão agressiva e tão rápida que em poucos dias raspei tudo para acabar logo com o sofrimento. Sempre choro antes e depois de cada sessão, tamanha a agressividade desse tratamento. Além da queda de cabelo, vários são os efeitos colaterais que “arrebentam” com a gente! Contudo, o que mais me apavora a cada sessão é notar as pessoas que lá estão voltando por problemas de metástases, isso alguns anos após a cirurgia. Tenho medo que a doença volte e sei que vou passar o resto da minha vida com medo, mas procuro me manter firme. Já voltei ao trabalho, voltei inclusive a fazer exercícios físicos na academia, apesar de precariamente. Tento sinceramente reagir e ser positiva, mas sempre que começo a melhorar e a sorrir, Marcelo faz alguma coisa que me desestrutura completamente, como prometer alguma coisa e não honrar, me deixar esperando toda arrumada, ligar dizendo que ao invés de sair comigo vai sair com os amigos, ou coisa semelhante. Isso tudo me desequilibra e aumenta ainda mais meus problemas de auto-estima, que já são enormes por causa da perda da mama e do cabelo. Na verdade, nunca na minha vida fui tão infeliz! Estou muito deprimida e não sei se o maior estrago foi causado pelo câncer ou pelo Marcelo. Só sei que quero poder viver com muita saúde física e mental para voltar a ser feliz.

Gostaria de tirar o Marcelo da minha vida de uma vez, mas não tenho forças para isso. Se eu tomar essa atitude agora, receio não conseguir sustentá-la, pois tenho medo de enlouquecer ficando absolutamente só. Moro sozinha e não tenho muita gente íntima para falar. Minha psicóloga tem ajudado bastante, mas sei que esse é um tratamento a longo prazo.

Todavia, há dois fatos que me marcaram de forma muito, mas muito positiva e não posso deixar de comentar. O primeiro foi a ajuda de muitas pessoas que souberam o que ocorreu comigo e me ligaram ou visitaram, oferecendo completo apoio. Foram tantas pessoas que chego a me emocionar quando lembro, pois percebo que há muita gente que me dá valor e gosta de mim.

O outro fato marcante foi conhecer o meu cirurgião plástico. Evidentemente já estou me preparando para a reconstrução da mama, que poderá ser feita daqui a poucos meses. Coloquei um expansor no dia da mastectomia e quando estiver liberada da quimioterapia, farei a reconstrução. Meu cirurgião plástico é uma das pessoas mais bonitas que conheci na vida, e agradeço a Deus por tê-lo conhecido. Ele transmite algo tão positivo e sua tranqüilidade é tão contagiante, que ir ao seu consultório para mim é uma benção. Ele também irradia tanta beleza, algo quase sublime, que chego a crer tratar-se de sua aura ou coisa semelhante. Meus outros médicos, o mastologista e o oncologista, são pessoas muito importantes também, até porque me salvaram a vida e lhes serei grata eternamente por isso. Mas o meu cirurgião plástico, com toda aquela luz interior, representa para mim não só a reconstrução da mama, mas também de todo o resto que preciso reconstruir.

O maior estrago causado pelo câncer não é físico, pois a mama se reconstrói e o cabelo cresce! O maior estrago é emocional, e isso é o mais difícil de reconstruir. Acho que a melhor forma de começar é agradecer a Deus por estar viva, e tentar tirar proveito de tanto sofrimento. Ser capaz de enxergar com muita facilidade o problema alheio, aprender a me doar mais e me despojar de valores inúteis, que de nada servem para a minha evolução pessoal. Espero me tornar uma mulher melhor, segura e forte como antes, é claro, porém mais humana e simples, mais voltada para a realização de coisas que tragam felicidade não só para mim, mas também para meus semelhantes. Acho que essa é realmente a felicidade plena e, apesar de todos os Marcelos e de todas as neoplasias malignas, tenho convicção que vou alcançá-la e eternizá-la, se Deus assim o permitir.

 

Lisa
Mai / 2001

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