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Em outubro de 1999,
estava tomando banho quando senti uma "coisa" estranha na
mama esquerda, era noite e fiquei preocupada, porque sempre fui uma
pessoa cuidadosa e fazia sempre o auto exame, principalmente tomando
banho (a mão desliza mais, dá para perceber melhor). Fui dormir
preocupada, uma certa apreensão instalou-se dentro de mim aquela
noite. Na manhã seguinte liguei para o ginecologista que me
acompanhava há uns 18 anos, minha confiança nele era total e foi
uma das maiores decepções nesse caminho escuro que estava entrando
sem saber...
Marquei consulta, ele me
examinou e pediu que não ficasse muito preocupada e esperasse a
menstruação, pois caso o caroço desaparecesse, era causa
hormonal. Não fiquei satisfeita e pedi para fazer uma mamografia,
tive que insistir, até que consegui que ele prescrevesse o exame,
que fui correndo fazer. Algo me dizia que alguma coisa estava
errada, sei hoje que o corpo sinaliza situações de perigo, eu
estava inquieta demais.
A mamografia demorou 2
dias para ficar pronta, deu achados suspeitos. Deveria ser
prosseguida a pesquisa, só que nesse intervalo estava chegando
minha menstruação. Já era novembro quando retornei ao
ginecologista, ele mal leu o laudo. A situação estava ficando
chata...pedi para continuar os exames. Fiz a ultrassonografia, deu
imagens densas, então ele resolveu fazer uma punção no consultório.
Após várias tentativas (não saía nada, o local ficou com um
hematoma), perguntei se ele não achava melhor eu ir a um
mastologista, o que respondeu que ele poderia resolver.
A punção foi negativa,
por falta de material suficiente. Ele, então, recomendou uma biópsia
(core biopsy), para que eu ficasse tranqüila, dizia que eu estava
"estressada", muito preocupada. Fui ficando irritada com
esses comentários, pois sabia que alguma coisa estava errada.
Antes de tudo isso
acontecer, marquei uma viagem à Maceió, estava há 2 anos sem férias
e iria visitar uma amiga lá. Como tudo isso demorou 2 meses, chegou
a data da minha viagem, em janeiro. Neste mesmo mes fiz a biópsia,
demoraria 7 dias o resultado, e nesse espaço de tempo fui para
Maceió.
Foram dias incríveis,
muito sol, estava bem, revi minha amiga, estava tão tranqüila,
parecia que estava sendo preparada para alguma coisa, não
sei...algo me incomodava, olhava toda hora para meu seio, pois fui
muito à praia, achava-o pesado e mais caído. Pensava em fazer uma
plástica. Claro que o hematoma da biópsia aparecia um pouco, mas
aqueles dias em Maceió foram um presente, estava com a aparência
saudável, queimada de sol...
Retornando ao Rio, já
se passavam 2 dias que o exame estava pronto, e fui apanhá-lo com
aquela cara de quem acaba de chegar de férias, mesmo que
preocupada. Pensei em qualquer coisa, menos no que ía acontecer
depois daquele dia. Entrei no carro sozinha e abri o envelope:
carcinoma lobular infiltrante de mama. Não tive reação, porque a
primeira coisa que pensei é que o exame estava trocado. Fiquei
parada, voltei para a clínica, queria conversar com algum médico
pois afinal eu tinha certeza que estava errado. Deu-me um bloqueio
total. Liguei para o meu médico, primeira decepção: pediu para eu
ler por telefone e disse "olha, é um câncer, eu não tenho
convênio, não posso te ajudar. Procure um mastologista e ele
resolverá seu problema", e desligou.
Naquele momento senti
muita raiva dele. Como pode ele fazer isso ? Dizer que não podia
fazer nada... comecei a chorar, estava confusa, um laudo de 4
palavras e iniciava com a palavra compatível. Poderia ser outra
coisa...minha cabeça confusa...morava só, não tinha com quem
conversar quando cheguei em casa e resolvi que não contaria à
ninguém, até ter certeza. Marquei um mastologista pelo meu convênio.
Nunca o tinha visto, estava nervosa, tensa, confusa. Ele olhou meus
exames, conversamos um pouco e ele perguntou se estava sozinha.
Disse que eu precisava operar imediatamente (seria em 4 dias). Tinha
1 dia para os exames pré operatórios, preparar tudo... fiquei
olhando para ele, e as lágrimas começaram a cair. Não queria
desabar na frente dele, eu nunca o tinha visto. Ele estava
apreensivo também, me falou algo que me fez pensar "você tem
que confiar em mim, sei que é difícil porque não me conhece. Tem
que conversar com sua família, marido, filhos". Respondi-lhe
que sou separada, sem filhos (perdi 2 filhos antes de nascerem),
morava sozinha, eu e minha mãe éramos distantes e tinha um
namorado. Indicou-me uma psicóloga de sua confiança e senti que um
vínculo se formava. Saí e fiquei rodando sem saber o que fazer.
Não era JUSTO, ía começar
outra faculdade, um novo emprego, estava namorando uma pessoa que
considerava legal, tinha saído de uma doença difícil (estava de
alta de uma polineuropatia). Não podia estar acontecendo...
Não queria contar para
minha mãe de jeito nenhum, porque ela é nervosa, precipitada,
sempre me sufocou, somos muito diferentes. Tinha medo da reação
dela, sempre digo que tenho uma mãe via Telemar, se não fôsse o
telefone...
No domingo, 1 dia antes
da internação, liguei para minha prima e contei. Ela ligou
para minha mãe e contou. Me senti traída, começou um inferno na
minha vida, um monte de gente ligando, fiquei louca. Minha mãe começou
a brigar que não era justo eu esconder dela. Eu estava arrasada, só
e totalmente transtornada. Operaria só a mama esquerda, mas por
precaução o médico faria uma biópsia na mama direita. Fiz uma
quadrantectomia na esquerda, fiquei 2 dias internada. Quando acordei
minha mãe estava comigo, sei que tentou me ajudar como faz até
hoje da maneira que pode, não me deixou sozinha...em termos.
O dreno foi algo
insuportável de agüentar. Quando tive alta entrei em pânico: quem
ficaria comigo ?
Minha mãe casou
novamente, tem a família dela (compreendia isso até então). Achei
que ela devia largar tudo e ficar comigo, mas não foi assim que
aconteceu. Contratei um enfermeiro que já conhecia e sabia que
estava desempregado, ele ficava comigo direto, e uma empregada. Os
primeiros dias foram caóticos, perdi o controle de tudo, muita
gente ligava, eu não queria falar com ninguém, estava muito
magoada, sofrida, cansada, mas não adiantava, o telefone não
parava. Hoje, se toca 2 ou 3 vezes é muito...os amigos, esses
estranhos seres, apareceram na hora mais imprópria, e depois quando
eu queria realmente vê-los, eles já tinham cumprido seu papel e se
foram...ficaram poucos.
Fiz radioterapia, que
foi muito difícil, pois tive radiodermite grau II, disseram que era
uma questão de sensibilidade, mas tenho certeza que não. Na 16a.
aplicação tive que interromper, seriam 25. Estava queimada,
enjoada, o calor era insuportável na época, e só piorava. Quando
recomecei ainda estava com a pele bem comprometida. Não se deve
prosseguir o tratamento quando a pele estiver úmida, com bolhas, e
ela já estava assim na 10a. aplicação. Mostrei à médica como
ela estava, torrada e úmida, mas ela em nada alterou o tratamento.
Me arrependo de não ter parado por minha conta, insisti até a 16a.
sessão, então resultou em queimadura. Se eu estivesse melhor
assistida não continuaria. Até hoje (junho de 2000) estou me
recuperando da queimadura, principalmente dos mamilos, que
inflamaram a tal ponto que ficaram sem pele, em carne viva. Foi
doloroso e danoso. Nunca se deve continuar se houver alteração de
pele e jamais passar qualquer creme antes da aplicação, isso pode
ser desastroso, é como se passasse óleo de baixa qualidade para ir
à praia. A radio não pode ser interrompida, e fiquei parada 21
dias, até poder recomeçar, ainda bastante queimada. Lutei muito
com meu convênio sobre isso e estou lutando até hoje, porque houve
erro, e fiquei sabendo que não fui a única.
Fiz dosagem de hormônio,
meu oncologista é seguro como meu mastologista, sinto muita competência
nele, mas não gosta de perguntas e eu tinha milhões. Dependia de
meus exames meu tratamento, e como meus linfonodos eram todos
negativos, comecei hormonioterapia. A biópsia da outra mama deu
carcinoma também, e a operei 1 mes após a esquerda (outro
quadrante).
Sou
fisioterapêuta,
minha área de trabalho é reabilitação física, e até por isso
sempre foi minha preocupação meus braços, porque os dois ficaram
comprometidos, sei que pode ter conseqüências, tenho muito medo do
edema, e ninguém lida com isso claramente. Sei que existe a certeza
da medicina, mas por trás disso existe uma pessoa, uma mente, que
às vezes surpreende com respostas diferentes do esperado. Tento
seguir o que mandam, mas o nunca é uma palavra muito forte (você
nunca mais...)
Minha família não me
surpreendeu, já tinham passado por isso antes, apareceram na
primeira semana, era um entra e sai. E ficou só uma prima, um primo
e minha mãe do seu jeito. Se as pessoas naquela época soubessem
que eu só queria descansar, colocar minha cabeça em ordem, mas me
olhavam com aquele olhar...como se eu fôsse uma coitada, como isso
me doía. Tinha um grupo de amigas da faculdade, esses grupos que se
reunem uma vez por ano, e na época tinha contato com uma delas via
Internet, só nos comunicávamos por e-mails. Contei para ela, todas
me ligaram, até a de Minas, que não via há 20 anos, e pensei que
estava morrendo, deveria ser pior do que esperava, porque elas
apareceram. Todas diziam estar rezando por mim. depois disso fiquei
pior, preferi que não tivessem aparecido, doeu demais porque soube
que foi falso, só queriam ver a "forte" que tombou.
Estava totalmente revoltada. Um dia minha mãe estava em casa e começamos
a discutir, comecei a me descontrolar porque me bateu uma culpa, não
conseguia parar de gritar, até que fiquei histérica mesmo. Eu
gritava coisas que eu nunca imaginava que podia dizer, gritava por
Deus. Naquele dia muita coisa veio para fora, como se fôsse uma
limpeza. Estava exausta, mas com sensação de alívio. Aprendi que
não devo mais engolir nenhuma raiva, COLOCO PARA FORA MESMO.
Meu pós operatório foi
tenso, nada tranqüilo, chorei muito, muito mesmo, sentia falta das
pessoas e não entendia o porquê de seus sumiços. Sei que o câncer
ainda causa medo em algumas pessoas. Aprendi a não me expor, foi
muito importante para mim aprender isso, pois sempre me expus muito,
dizia claramente tudo, hoje só falo quando é necessário.
Sempre fui uma pessoa
espiritualizada, sempre busquei o caminho religioso, achando que não
era só isso aqui, segui várias filosofias orientais, vivi na India,
praticava meditação, era muito zen...foi uma forma que encontrei
de controlar minha impulsividade. Sempre gostei da vida, como ela se
apresentava. Nesse período difícil larguei tudo, resolvi ficar só,
seguindo meu coração, minha intuição.
Meu namorado sutilmente
foi embora, mas uma nova amiga me disse uma coisa que me fez pensar:
se ele foi, ele então não era o que eu pensava dele, e ela
tinha razão. Foi saindo de mansinho, mas fui percebendo toda a sua
manobra. Percebo hoje em dia como minha percepção aumentou muito,
sei bem o que quero e não quero, dou palpite em meu tratamento,
discordo, concordo, não fico passiva, nunca fiquei. Sinto que estou
mais esperançosa e menos tensa. Atualmente tenho uma pessoa para
ajudar em casa nas tarefas domésticas, por causa dos meus braços,
e ela mora comigo, é um amor de pessoa, caiu do céu. Faço
hidroginástica há pouco tempo e percebo que esta atividade me fez
bem ao físico e à mente. Aconselho à todas procurarem uma
atividade como a minha.
Depois que meu namorado
foi embora não tive contato com ninguém sexualmente e acredito que
isso vai levar um bom tempo, não quero agora nenhum relacionamento,
não quero acreditar em coisas do coração e me decepcionar, por
enquanto estou me sentindo bem sozinha.
Não estou trabalhando,
isso é o que mais me abala, pois sempre trabalhei, mas minha
profissão exige muito dos meus braços. Fiz minha fisioterapia
sozinha, foi um sufoco, doía muito no início, mas meus braços em
3 meses estão sem bloqueio articular. Aprendi outra coisa, não
direi a mais nenhum médico que sou da área da saúde, complica
mais, eles aí é que não querem falar mesmo. Apesar disso, tenho
uma relação muito boa com meu mastologista, sinto que se preocupa
de verdade. Bombardeio ele de perguntas, mas quando demoro a ligar
ele pede à secretária para saber como estou. Acho isso legal nele.
Meu oncologista, pela própria especialidade é objetivo, e tenho o
maior medo de ligar para ele, pois pergunta se é assunto sério,
caso contrário não dá para conversar. Mas ele resolve.
Fiz o tal rastreamento
onde me senti mal pela forma que é, uma maratona. Faz exame, pega
resultado, liga pro médico, cintilografia, ressonância, sangue, é
uma corrida. Saí dessa fase, graças à Deus.
Penso hoje em dia como
foi que passei por tudo isso, já fazendo 4 meses. Tenho desejo de
mudar de cidade, de pessoas, recomeçar minha vida em outro lugar,
longe das pessoas que souberam do meu câncer. Hoje não tenho
vontade de sair, fico em casa bem, vejo filmes, leio livros, faço
exercícios de visualização, me imagino saudável...bem...é difícil
porque às vezes baixa a depressão, mas esses exercícios me ajudam
muito. Mas tem uma situação que me ajudou a não perder vínculo
afetivo, e isso eu quero contar porque como me ajudou !!! Sempre
gostei muito de animais, tenho duas gatinhas que são grudadas em
mim. Olho para elas e sempre aquele olhar dócil, são
supermeigas...elas sim, estão comigo até hoje do mesmo jeito,
parece que sabem que não podem me arranhar (vivia arranhada, hoje
elas chegam perto e principalmente a mais levada encolhe as unhas),
é uma coisa estranha, parece que sentem que estou diferente. Meu
oncologista falou um dia que não poderia ter mais gatos, então
falei que colocaria uma proteção nos braços, mas sem elas eu não
fico, são minhas amigas, percebo que elas me estimulam porque me
preocupo. Quando faço carinho nelas é uma forma de contato
afetivo, sinto uma troca, me preenche. Quando choro elas percebem e
ficam grudadinhas em mim, mas sei que não sou mais a mesma pessoa,
ainda estou muito triste, mas cada coisa que faço sozinha na rua,
as decisões que tomo estão mais seguras. Estou me respeitando
mais, fiquei com certas limitações, meus braços são minha eterna
dúvida, mas comecei a agir, não deixo nada parado.
Estou fazendo
hormonioterapia e não senti nenhum efeito colateral até agora.
Tenho revisão com o mastologista de 4 em 4 meses, e o
oncologista pediu que ligasse caso sentisse alguma coisa diferente.
Só queria deixar aqui uma coisa que considero muito importante: não
perdi minha dignidade, sofri muito e hoje em dia quero que me
respeitem, que não interfiram na minha vida. Quem ficou do meu lado
tem minha eterna gratidão, de quem foi não sinto mágoa, sinto que
não era para ficar mesmo. Tenho uma certa incerteza em relação ao
futuro, não fiz nenhum plano ainda. Tentei foi sobreviver a tudo
isso, mas sei que se alguém estiver passando por isso, conseguirá
ultrapassar as primeiras barreiras, e certamente será uma grande
guerreira.
Não se pode desistir de
nada, principalmente da vida.
Jun / 2000
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