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Fico
pensando em como somos singulares, únicos. A experiência por que
passamos foi semelhante, mas as reações, os pensamentos nem tanto.
Quando
soube que precisaria ser operada (após uma punção), estava com
uma viagem programada com minha filha. O médico queria me operar
imediatamente, tão logo ficassem prontos os exames pré-operatórios.
Mas eu não. Eu queria, antes, fazer minha viagem (obviamente, adoro
viajar). Por causa disso resolvi procurar um mastologista para saber
sua opinião. Ele disse que, como médico, não me aconselharia a
viajar, mas respondendo à minha pergunta, disse que não faria
diferença. Decidi ir. Antes, fiz os exames pré-operatórios e,
embora não pudesse ter certeza do que viria pela frente, fui
encomendar uma peruca de cabelos naturais, de cor semelhante aos
meus. Ao contrário da maioria (na verdade ao contrário de todas as
pessoas que passaram por isso e de quem eu soube a história),
embora tenha ficado surpresa, não chorei (e, diga-se de passagem,
sou uma pessoa bastante emotiva), não fiquei deprimida nem me senti
vítima de nada. Em nenhum momento perguntei o famoso "Por que
eu?" (ou semelhante) porque acho que tudo pode acontecer com
todos, e acho que este tipo de indagação pressupõe que esta
experiência é algum tipo de castigo, punição e/ou que somos
"melhores" do que outros. Não vejo assim, é só mais uma
vivência, das muitas que a vida nos apresenta. Obviamente não é
agradável, mas olhem em volta e me digam: vocês conhecem alguém,
independente de classe social/credo/raça, cuja vida tenha sido
sempre um mar de rosas? Pois é, nem eu. Viver é experienciar !
Fiz
minha viagem, curti tudo que tinha direito, cheguei numa
quinta-feira e no sábado me internava para a cirurgia, tendo alta
no domingo. Meu pós-operatório foi bom, não houve nenhum problema
(só o dreno é que é chatinho quando se sai à rua, mas isso não
me impediu de comer fora, dirigir, ou qualquer outra atividade
corriqueira neste período). Tudo correu muito bem até ter o
resultado da biópsia e a previsão do tratamento: 7 gânglios
tomados e, o que eu temia: quimio e radio. Este foi o único dia, até
hoje, que chorei por alguma coisa relacionada ao câncer: não pela
metástase, não pela quimio em si, mas pela possibilidade de ficar
careca. Sei que é esquisito, mas o difícil, para mim, foi ficar
careca, não sem peito.
A
quimio realmente foi "barra" (no caso da minha, pois hoje
sei que existem remédios diferentes na quimio, alguns mais
"suaves", outros mais "pesados"), e, embora seja
uma pessoa bem humorada, costumava dizer que com quimio, não há
bom humor que resista. No meu caso (e é bom lembrar que,
independente do tipo de quimio, cada organismo é um e reage
diferentemente diante de um mesmo estímulo), eu passava 3 dias
enjoada, sem poder comer nadinha, só bebendo água. Se ingerisse
qualquer coisa, vomitava quase em seguida. Estes dias eram os
piores. Nas duas últimas sessões (tive 6, de 21 em 21 dias) na véspera,
eu já começava a ter mal estar (o organismo já se condiciona,
"sabe" o que está por vir). Após a quimio, a rádio.
Esta, tirei de letra. Não tive nenhum problema. Hoje em dia (vai
fazer 3 anos em julho) tenho que fazer os exames de controle e,
sempre que chega esta hora, fico um pouco ansiosa. Em setembro
passado, fiz a reconstrução (não quis fazê-la simultaneamente a
mastectomia), isto é, a primeira parte da reconstrução (a parte
principal) e, espero em agosto, fazer a segunda.
Mas
tem uma coisa que observei, e que gostaria de comentar: foi o
preconceito que algumas pessoas têm em relação ao câncer. Uma
atriz, que também teve câncer de mama, se disse uma
"vencedora" (por já ter tido alta) Ora, como em qualquer
outra situação adversa, a forma como reagimos diante desta experiência,
pode ou não ajudar, mas em primeiro lugar não podemos considerar
esta postura (qualquer que seja) como determinante da recuperação
e, em segundo, ainda que fosse, nenhum de nós escolhe como vai
reagir emocionalmente diante disso ou daquilo. Não existem pessoas
"fracas" ou "fortes" (o que quer que isso possa
significar) diante de uma doença, existem simplesmente pessoas, que
reagem como podem/sabem. Algumas podem precisar de mais apoio do que
outras, mas não existe mérito nem desmérito num ou noutro caso.
Noutra
ocasião, ouvi num programa de tv o dublê de entrevistador,
comentando sobre algum mau caráter, e terminou o comentário
dizendo alguma coisa do tipo: "depois não vá reclamar se
tiver um câncer." Quer dizer, tem câncer quem merece. Coisa
parecida ouvi de uma amiga (pensando, evidentemente, que estava me
agradando): "a fulana (filha dela) disse que não se conforma
que, logo você, uma pessoa tão boa, teve um câncer." De
novo, o raciocínio é o mesmo: tem câncer quem merece, e durma-se
com um barulho desse!
Acho
que foi a Shirley Maclaine quem disse: "Experiência não é o
que nos acontece, experiência é o que fazemos com o que nos
acontece". Viver é estar exposto às experiências, boas ou más.
O importante é que tentemos fazer sempre nosso melhor, é por isso
que, acredito, estamos aqui.
Lúcia
Maio
/ 2002
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