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Era
janeiro de 2001 estava com um furúnculo na virilha que doía muito,
então resolvi ir à ginecologista, pois também já estava na hora de
fazer o meu exame de Papanicolau.
Aproveitando
a consulta, solicitou uma mamografia. Eu acho que ela já havia
sentido alguma coisa estranha no exame físico, mas não quis me falar
nada. Eu sempre a questionava por nunca ter pedido este exame,
inclusive minha irmã brigava comigo por esse motivo, dizendo que eu
deveria exigir isto dela, mesmo não tendo caso de câncer na família.
Eu
me tratava com ela desde o nascimento de minha filha de 9 anos, nos
conhecíamos há bastante tempo, e no fundo eu fiquei magoada com ela,
inconscientemente eu a culpo por isso, mas gostaria de esquecer este
sentimento, pois não me faz bem.
Depois
de estar com o pedido da mamografia nas mãos, uma noite deitei por
cima do braço esquerdo e senti uma pressão muito forte, guiei meus
dedos até a axila e senti um grande caroço que me assustou muito.
Meu
marido também quis me acalmar, mas na verdade ficou assustado também.
Me comuniquei com a médica, e ela me disse que o exame esclareceria
tudo.
Fiz
o exame num laboratório conceituado, não fiquei encucada, pois nós
achamos que isto não aconteceria com a gente.
Enfim,
fui viajar com minhas filhas para o interior de São Paulo. Quando
voltei, minha médica havia me ligado dizendo que o Papanicolau estava
normal, mas que a mamografia havia dado uma alteração, e por isso
ela iria me pedir uma biópsia. O nome do exame era biópsia percutânea,
guiada por mamografia (core biopsy) que só encontrei em um hospital.
Foi
um exame muito dolorido, feito por uma equipe maravilhosa, que mais
tarde me operou. Foi feito no dia 05/02/2001. Dois dias depois me
ligaram dizendo que o exame estava pronto, e já fiquei assustada,
pois o prazo era de dez dias para a entrega do resultado.
Meu
marido foi buscar para mim, já era noitinha quando ele me entregou, e
eu estava um tanto nervosa, estava lavando a louça da janta,
interrompi e abri o exame, li a primeira palavra (carcinoma) e já
comecei a chorar copiosamente, misturando minhas lágrimas com a água
da pia.
Liguei
para a doutora, e nem conseguia falar, meu marido foi quem tratou de
tudo com ela.
Aquela
noite pra mim foi interminável, liguei pra todas as pessoas que eu
gostava, e de pronto já veio uma irmã pra minha casa, e uma amiga
que adoro veio me dar apoio e me contar de uma pessoa conhecida dela,
que passou por tudo isso, estava ótima, me acalmei um pouco.
O
resultado do exame foi CARCINOMA DUCTAL INFILTRANTE DA MAMA ESQUERDA
GRAU
III.
No outro dia passamos no consultório dela e pegamos uma carta
dirigida à mastologista do hospital onde seria operada. Encontrei no
hospital uma médica maravilhosa, enviada por Deus e Nossa
Senhora Aparecida, todos da família adoram ela.
Ela
me pediu todos os exames pré operatórios: cintilografia óssea,
ultrassom de abdome total, ultrassom transvaginal , raio X do tórax e
avaliação cardíaca, hemograma completo e o CA 15-3. Os resultados
foram perfeitos, Graças a Deus.
Mas
nesse mesmo dia soube que faria mastectomia radical, fiquei aérea,
andava pelo hospital chorando feito uma louca, todos olhavam para mim
com pena, o mundo caiu sobre a minha cabeça; pior era o medo de estar
com metástase em outros órgãos, fiquei apavorada até chegar os
resultados dos exames.
Na
última visita antes de marcar a cirurgia, minha amiga Nilda foi
comigo, sempre me dando a maior força. Enfim a cirurgia foi marcada
para dia 12/03/2001.
Ela
me pediu para chegar ao hospital às 5:30 hrs. da manhã, para
primeiro resolver a parte burocrática do convênio.
Fui
internada, acompanhada de meu marido e minha cunhada Cida, gente finíssima.
Às
oito da manhã fui para a sala de cirurgia, rezei muito e pedi para
que Deus abençoasse a todos que participariam da cirurgia. Correu
tudo bem, acordei às 12:30 hrs., tremendo muito de frio, quando
melhoraram esses sintomas fui para o quarto, e logo já começou a
chover telefonemas e visitas.
Saí no
dia 14, dois dias depois da cirurgia. Minha irmã estava em casa
cuidando de tudo e de todos, me recebeu com tanta alegria e fé...
Te
amo minha irmã, obrigada por tudo.
Recebi
muitas visitas em minha casa, pessoas que quero muito bem. Quem me
dava banho era meu marido, fazia curativo 2 vezes ao dia (ele estava
de férias), me levava ao hospital para fazer curativos e tirar os
pontos.
Era
muito difícil dormir por causa da dor no braço e aquele dreno chato.
Meu marido era quem cuidava do meu cachorrinho, ele lavava, tirava
o sangue do dreno com a seringa, tudo com a maior paciência. Ele e
minhas filhas não deixavam ninguém chegar perto, de medo de alguém
arrancar o meu cachorrinho, às vezes eram até chatos com os outros.
Minha
pequena dormia do lado da minha cama, e toda vez que eu queria ir ao
banheiro, ela segurava a minha sacolinha e lá íamos nós.
Passada
essa fase ruim, fui encaminhada ao oncologista e ao radioterapeuta da
mesma equipe.
Eu
não pude fazer de imediato a radioterapia, pois faltava um pouquinho
para cicatrizar.
Recebi
da minha mastologista o resultado do anatomo patológico - CARCINOMA
DUCTAL
INFILTRANTE GRAU III, COM ESVAZIAMENTO AXILAR, RETIRADOS 30 LINFONODOS,
SENDO 2 COMPROMETIDOS.
Na
primeira visita ao oncologista fiquei encantada com ele, alto astral,
me disse que o meu caso era muito comum no consultório, e que não
era para eu pensar besteiras nem ouvir conversa de comadres, porque
tem gente que quer arrasar com a gente.
Ele
prescreveu 6 sessões de quimioterapia num espaço de 4 semanas, disse
que o meu cabelo poderia cair um pouco, mas para minha sorte dava para
contar os fios que cairam, fiquei com o cabelo normal.
Foi
marcada a primeira quimioterapia para o dia 3/04/2001, um dia antes eu
até sonhei com isso, de tanto nervoso e medo, porque a gente imagina
uma coisa monstruosa.
Foi
uma experiência dolorosa, mas eu fiquei firme com os efeitos
colaterais, depois a gente se acostuma.
Até
o final do tratamento eu engordei 7 Kilos, entre uma quimio e outra eu
fazia um hemograma. Em seguida, quando cicatrizou bem a cirurgia,
voltei ao radioterapeuta, que pediu um exame de tomografia para ser
marcado o local a ser irradiado, no total seriam 28 sessões. Comecei
em maio e terminei no início
de julho, pois nesse tempo houveram feriados e manutenção de máquinas.
Fiz
muitas amizades na radioterapia, até hoje tenho contato com algumas,
a maioria era de mama, foi uma troca de experiências muito agradável.
Eu
achava muito cansativo ir todos os dias ao hospital de manhãzinha,
deixava minha filha menor dormindo, e a maior ia pra escola, mas Deus
me deu tanta força que hoje eu penso que não fui eu quem fez isso
tudo. Difícil era quando fazia quimio e radio simultaneamente, o
efeito era triplicado, mas não tive
problemas com a radio como algumas pessoas que chegavam até a
sangrar, tendo que interromper o tratamento.
Em
meio a tudo isso fui encaminhada à psicóloga da equipe, fiz algumas
sessões mas parei, pois era muito cansativo para mim. Segundo meu
oncologista, não precisarei tomar bloqueador de hormônios, pois meu
painel de receptores hormonais comprovaram que não foi provocado
pelos hormônios. Ele me sugeriu fazer a reconstrução após 2 anos
da cirurgia.
Eu
acho que reagi melhor do que esperava a isso tudo, tem pessoas que me
dizem que se eu não contar, ninguém
acredita de tão bem que estou.
Terminei
a quimio em 28/08/2001.
Minha
família levou um choque, mas me apoiaram completamente. Abri o jogo
logo de cara com minhas duas filhas, Luciana e Bruna, e elas me deram
todo amor do mundo. Do meu marido nem se fala, pois ele me provou o
quanto me ama. Meus amigos verdadeiros me deram o maior apoio, faziam
até limpeza na minha casa, e sempre lembrando de minhas irmãs
maravilhosas que estiveram comigo em todas as horas. Agradeço muito
à minha cunhada Maria Helena, que em toda quimio ia me buscar de
carro, pois meu marido tinha que trabalhar.
Sinceramente,
eu não pensei que tivesse uma fé tão grande (sou católica).
Alguns
dias antes da cirurgia eu estava um pouco triste, e pedi para que
Jesus me mostrasse uma palavra que me confortasse. Abri a Bíblia em Jó
5 vrs de 1 a 27. Depois disso só fui me animando e adquirindo confiança.
É
claro que eu tenho medo de fazer exames e aparecer alguma coisa, mas
isso é normal, somos humanos.
Em
outubro de 2001 fiz os primeiros exames de controle: cintilografia óssea,
cintilografia hepática, ultrassom abdominal e transvaginal, raio x do
tórax. Em fevereiro volto novamente no médico, e assim vou levando a
vida, com confiança e planos de fazer alguns cursos e trabalhar.
Na
parte sexual sinto que dei uma esfriada, pois não é fácil, é uma
virada de 180 graus na vida da gente, quero voltar a ser a mesma, acho
que mereço, pois meu marido é muito compreensivo, encarou com muita
naturalidade e nunca deixou de me procurar. Nós nos amamos e nos
respeitamos muito.
Agora,
aos domingos, ele toma conta da cozinha, faz pratos deliciosos, não
sabe como me agradar, e agradeço a Deus todos os dias. Eu sei de
maridos que abandonaram as esposas depois do ocorrido, isto é o cúmulo.
Já
há algum tempo retomei minha vida de mãe, dona de casa e esposa,
sempre tomando cuidado com o braço esquerdo, e pra variar sou
canhota.
Comprei
uma prótese muito bonita de silicone, dá para disfarçar muito bem,
mas depois de passado esse tempo todo, já penso em fazer a reconstrução,
pois me considero muito jovem ainda.
Hoje
em dia dou valor à muita coisa que antes eu nem reparava, desde um
simples passarinho cantando na minha janela.
Eu
confesso que fiquei muito mais humilde, porque esta neoplasia maligna
não escolhe cor, raça, religião nem classe social, o sofrimento é
igual para todos. Sempre me dizem que sou muito forte, realmente eu
acredito nisso.
Não
é fácil passar por tudo isso e manter a postura.
Espero
que meu depoimento ajude outras mulheres que estão descobrindo este
problema agora, ou vão descobrir mais tarde. Tenham muita fé em
DEUS, chorem o quanto quiserem, mas não fiquem se lamentando, pois
vocês não serão a primeira e nem a última. Não tenham medo,
enfrentem a doença de frente, sejam mais fortes do que ela, e vocês
vencerão como eu venci e muitas mulheres venceram. Me considero uma
vitoriosa.
Agradeço
primeiramente a DEUS, a meus médicos, à minha família que eu amo,
aos meus amigos do coração que eu tanto estimo, à equipe de
radioterapia e de quimioterapia do hospital, que foram maravilhosos.
O
que me importa hoje é a minha vida, o peito a gente faz outro e
pronto.
Uma
coisa boa desta fase foi que eu parei de fumar. Estou muito feliz por
estar viva.
Sejam
fortes e felizes vocês também, MULHERES.
Um
abraço muito forte e lembrem- se:
VOCÊ
É CAPAZ, E VOCÊ PODE TUDO !!!
JESUS
ESTÄ DO SEU LADO !!!
LUTE
PELA SUA VIDA
!!!
MARLENE
Mai/2002
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