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Em setembro de 1998 passei por um
urologista porque estava com infecção urinária. Na sala de espera
estava um cartaz do auto exame das mamas. Aquilo ficou na minha
cabeça, porque jamais algum médico me examinou, e eu também não
me tocava. Ao chegar em casa e fazer o auto exame, qual foi minha
surpresa: uma bola em meu seio esquerdo, grande que se tivesse
tocado há mais tempo sentiria facilmente. Marquei uma consulta toda
nervosa com o mastologista, e fui atendida dois dias depois. Meu
médico desde o começo foi péssimo, não respondia pergunta alguma
e reclamava quando eu insistia em saber das coisas. Me achava nesse
direito e fazia, mas ele não gostava. Chamou a mim de desmazelada
porque contei como descobri e que nunca me examinei. Além de doente
me senti humilhada. Grande médico! Devido a minha pressa e devido a
ele ter dito que eu provavelmente tinha câncer, rapidamente fiz
todos os exames, que confirmaram meu diagnóstico, e marquei a
cirurgia para o dia de meu aniversário: 18 de setembro. Não falei
nada com ninguém até tudo estar certo, pois meu marido há tempos
não se importava comigo, minha filha trabalha e estuda e fiquei
sozinha. Achava que era só até todos saberem. Qual não foi a
minha surpresa que ao saberem de meu mal fiquei mais só ainda! Nada
de amigas, que desapareceram, nada de família, pois alguns achavam
que podia pegar, e eu fui para Porto Alegre na véspera da
operação com minha filha, a única que me restou. Eu tive
depressão já antes da operação, e ninguém se incomodou. Fiquei
com minhas companheiras de quarto até a hora da cirurgia, e já fui
dormindo para o centro cirúrgico. Eu não sabia, até essa hora,
que ia ficar sem meu seio, só que ia operar o seio. Ao acordar e
ainda estar inchada, demorou para que eu assimilasse o que tinha
acontecido, até que uma paciente falou: não sabes o que te
aconteceu ? Com quem tem câncer é assim mesmo, tivestes que tirar
o seio fora, amiga, agora paciência, é tocar para frente. Fiquei
chocada, chorei tanto que me deram um calmante. Não era justo eu
não saber. Eu tinha vontade de voar no médico e bater nele. Tão
desumano, não se colocou em meu lugar um só minuto, só me
criticou e achou que eu me viraria bem (ele disse isso na primeira
visita no hospital). Falou também que muitas passam por isso e
vivem, e que se eu tivesse sorte, também viveria. E vivi mesmo.Meu
marido é tão maravilhoso que me buscou no hospital 2 dias após
minha alta, ainda reclamando que eu estava demorando para entrar no
carro e ele estava atrapalhando o trânsito. Não tomou cuidado com
os buracos na estrada e nas ruas, e senti muita dor. Acho que pior
foi a dor interior por estar sendo tratada como lixo. Ao chegar em
casa, já fui para o quarto de minha filha, onde estou até hoje.
Ele disse- me como todo bom alemão que é, que não queria alguém
que parecesse como vítima de guerra com ele. Ele nunca me fez tão
feliz ao me livrar de seu ronco absurdo e seu cheiro quando teimava
em deitar sem tomar banho. Eu estava mais inteira que ele. Nele sim,
faltava um pedaço importante: respeito e amor pelos outros. Minha
filha me ajudou muito, mas eu tinha que esperar por ela para tomar
banho, senão não me lavava direito, e passava muito frio, pois ela
chegava após as 11 da noite. Foi difícil, mas como eu mesma li
aqui, passou. Meu dreno ficou com pus e levei 25 dias com ele. Meu
médico continuou do mesmo jeito, ele é assim. Já me acostumei mas
não acho certo. Tudo passou. Inclusive a malvada da quimioterapia
que me arreava na cama por 3 dias, coitada da minha filha cuidava de
tudo, roupa, comida, tudo. Eu não conseguia fazer nada. Nunca
passei privação financeira porque tenho uma pensão do meu pai que
era militar, mas passei pela privação de atenção, carinho,
humanidade. Não tive amigos ou família para me acolher, pelo
contrário, só me desprezaram. Quando apareciam para me visitar
traziam frutas e muitas vezes nem passavam da porta. As pessoas não
fizeram questão de me respeitar, mas se respeitaram em seu egoísmo
tremendamente. E depois ainda falam que não tem o que me falar:
elas é que não sabem falar! Cansei de ouvir que se precisasse era
só chamar, mas via-se que estavam rezando para que isso não
acontecesse. Hoje estou em paz. Tive Deus e minha filha do meu lado.
Minha fé não ficou abalada, foi o que me manteve em pé diante de
tanto desprezo que sofri. Deus, acima de tudo sustentou minha filha
para que conseguisse cuidar de mim, e esta foi também minha
salvação. Trilhei um duro caminho mas estou colhendo frutos. Meu
marido continua sendo o que nunca deixará de ser, um coitado que
pensa que é Hitler. Escrevo, agora pela Internet, para a Alemanha
onde tenho uma irmã e família. Estou com uma tia com câncer de
mama também , e converso sempre com meu tio e minha irmã sobre
ela. Mas só consegui abrir meu coração aqui, sei que minha filha
vai se espantar quando ver meu depoimento.
Nas vésperas dos exames fico
profundamente deprimida, não consigo dormir e até do outro quarto
ouço o barulho do meu marido roncando, e aí vou ficando cada vez
mais aflita. O medo de que eu volte a adoecer me consome. Quando os
resultados chegam eu ainda tenho que esperar a consulta, e não
consigo mais abri-los. Eles ficam debaixo de uma imagem de Nossa
Senhora das Graças que tenho, aguardando a hora de serem abertos.
Que agonia. Depois, quando vejo que tudo está bem, toco minha vida
adiante, confiante, até os próximos exames. Procuro dar às
pessoas que merecem aquilo que não recebi, e procuro esquecer o que
de mal aconteceu, mas não consigo. Um ferro quente me marcou e vejo
todos os dias seu resultado em mim. Não posso ainda fazer a
reconstrução, espero que aconteça ano que vem, mas meu novo
milênio iniciou no dia que completei 48 anos: no dia que operei.
Peço à Deus todo dia por quem quer ajudar quem passa por isso.
Peço que os médicos sejam mais humanos, pois competência não se
mede pela capacidade de humilhar a quem se trata, e peço que todas
as mulheres se toquem, para não acontecer com elas o que aconteceu
comigo. Estou pensando em fazer um trabalho voluntário, pois como
li aqui, porque cruzar os braços se podemos ajudar? Sou outra
mulher, cheia de vida, contente e sabendo dar valor às coisas
certas. Hoje sou mais mulher e mais inteira do que nunca.
Maio/2000
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