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Sou Samira, e estou desde maio mastectomizada por causa de um câncer
de
mama em meu seio esquerdo. Sou muçulmana, minha família é radical
em relação aos nossos costumes, e uso aquelas roupas que tenho
certeza que muitos riem quando enxergam. Meu câncer esteve comigo
durante 2 anos, período que vivi o mais terrível pesadelo, pois além
de carregar comigo a doença, carreguei todo o preconceito de uma
família que deu à mim a culpa por estar doente. Ouvia de minha mãe
várias vezes por dia que estava com câncer no seio porque deveria
ter feito algo para merecer.
Meu desespero chegou a ponto de pensar
na morte como saída para minha vida. Minha mãe ia ao médico comigo, mas exigiu que ele nada
explicasse além da doença e suas conseqüências, além de proibir que eu fosse
operada por mais de 3 vezes. Até hoje não sei o que se passava em sua
cabeça. Quando contou para minha irmã, aí é que tudo piorou, pois ela casou-se com quem eu
deveria ter casado, mas eles se gostaram, então ela disse que isso acontecia por eu
ter nutrido paixão por meu cunhado, e o desejo me mataria.
Sofri muito até encontrar um médico que convenceu minha mãe a contar para o meu pai
o que me acontecia, e após marcar a data da cirurgia ela realmente contou à ele, que por
2 dias sequer ficou no mesmo lugar que eu, talvez por vergonha, não sei até hoje.
Só fui saber como as coisas aconteceriam quando encontrei este site, dias antes da
cirurgia. Eu me sentia à beira de um abismo, pronta para cair e morrer, quando descobri
que poderia voar, minha amiga daqui me ensinou isso. Devo muito, devo minha vida e
recuperação à ela e à psicóloga que me compreenderam, conversaram comigo e
mostraram uma vida para ser vivida sem preconceitos. Respeitaram minha religião
quando nem eu mais respeitava ou acreditava. Acima de tudo me respeitaram como mulher,
como ser humano, quando eu mais desesperada estava pela proximidade da cirurgia.
Operei dia 10 de maio, eu estava confiante que tudo correria bem, ao contrário de minha
família, que chegou a dividir minhas jóias, queriam saber aonde era meu cofre para se
apossarem delas, e estavam aflitos pela escritura de um terreno que comprei anos
atrás e não encontravam. Sofri as dores e desconforto da cirurgia sozinha, sem apoio. Ainda bem que sabia o
que aconteceria, chegou bem perto de tudo que vivi no hospital.
A empregada de minha irmã vinha até a minha casa e me ajudou nos banhos,teve pena de mim, tudo foi difícil,
mas sabia que conseguiria. Nunca valorizei tanto a vida, logo eu, solteira, morando com
meus pais e destinada ao nada. Acumulei bens materiais que não me serviram para nada, e
consegui em cima da hora, bens que
ignorava. Minha família abomina a Internet, então consultei o computador de uma amiga, e
marcava dia para receber minhas preciosas mensagens. Minha amiga imprimiu e levei-as
comigo durante um bom tempo. Esses e-mails impressos viraram minha ponte para continuar
a ter esperança de viver. Hoje digo que tenho orgulho de ter conseguido.
Pouco falo sobre o assunto em minha casa, só com meu médico, que agora consegui e vou sozinha nas consultas, só com
o chofer. Estou indo para a terceira quimio, estou completamente careca, mas como meu cabelo
nunca apareceu, não ligo, mas sinto falta. Só a empregada da minha irmã me viu careca,
minha mãe soube depois de 10 dias que caíram, parece não se importar e até se
divertir, como se eu não fosse vítima e sim causadora da doença. Não ligo, estou cansada
de tantos valores inúteis que recebi, chegar a pensar em desistir é fraqueza, mas o que
vivi foi muito forte para qualquer pessoa. Quando volto da quimio vomitando, tenho que
ficar em meu quarto, e só a empregada vai até lá. Quando melhoro, então saio e nada
comento, como se fosse proibido, só que não é. Nem eu mesma entendo.
Quero dizer que ninguém deve desistir, mas deve sempre procurar ajuda, porque sozinha
fica difícil. Hoje eu sei que tenho com quem contar, meus e-mails estão amassados e
gastos, minha amiga prometeu imprimir novamente para mim. Conto principalmente
comigo, me sinto gente, importante, sobrevivente. Mas estou viva, me tratando e
vendo o dia chegar sempre, logo eu que estava acostumada na escuridão.
Agradeço ao Ser Superior que me ajudou e acolheu, e às pessoas que se importaram
comigo como se me conhecessem, e sempre desejarei que cada uma encontre alguém como
eu encontrei, que receba a ajuda certa na hora pior, e consiga abrir o coração para
as palavras de pessoas que sabem o que dizem e se dispõem a ajudar. É bonito ver a vida
de novo, ou como eu, pela primeira vez. Samira
Jun 2000
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