|
Bem, tudo começou em julho
de 1991 quando descobri, pelo auto-exame, um nódulo na mama
esquerda. Não pensei em câncer. Como aos 20 anos já tinha tido um
nódulo mamário benigno, supus que fôsse a mesma coisa. Mas,
claro, consultei imediatamente meu ginecologista que após uma
mamografia diagnosticou "displasia mamária".
Tratei durante 1 ano como
displasia mamária. Como o nódulo aumentou, meu marido decidiu que
devíamos procurar um Mastologista em São Paulo. Assim fizemos. Era
o dia 3 de setembro de 1992, véspera do aniversário de minha
terceira filha. Tenho 4, dois meninos e duas meninas, que nessa
época tinham 14,13,12 e 10 anos. Eram pré-adolescentes. O médico
em São Paulo examinou-me, olhou a mamografia antiga e disse-nos que
a chance de não ser câncer era pequena e que estávamos atrasados
1 ano. A cirurgia era urgente. Nós precisávamos voltar para casa e
conversar com nossos filhos. Eu devia fazer os exames
pré-operatórios, precisava de um doador de sangue na família e
devia me internar no dia 7 de setembro. A cirurgia ficou marcada
para o dia 8 do mesmo mês. Saímos do consultório médico e fomos
ao Hospital Oswaldo Cruz já com o pedido de internação. Vendo os
bancos na sombra de árvores frondosas, pedi ao meu marido que nos
sentássemos um pouco ali. Eu precisava chorar. Mas qual não foi a
minha surpresa quando, ao sentarmos, meu marido querido não
conseguiu mais se conter e chorou feito criança. E assim, um
consolando o outro, encontramos as forças que necessitávamos para
enfrentar a tempestade que se formava à nossa volta. Reagimos e
vimos que havia um inimigo a ser enfrentado e vencido. Não tive, a
partir dai, mais dúvidas: era vencê-lo ou vencê-lo! E eu queria
muito vencer: por meus filhos, por meu marido, pela grande família
(pai, mãe, sogro, sogra, irmãos, enfim por todos aqueles que eu
amava e que sabia me amavam também). Não tinha, portanto, escolha,
era só vencer! Voltei para casa consciente das dificuldades, mas
sabia que a mastectomia (o médico já havia me avisado que isto
provavelmente aconteceria, mas ele faria antes biópsia por
congelamento para se certificar), quimioterapia e radioterapia
faziam parte das estratégias de guerra. Eram as armas necessárias
e eu usaria tudo para vencer o inimigo fatal. Foi com este ânimo
que conversamos com nossos filhos. Não escondemos nada. Falamos
sobre a possibilidade de ser um câncer, mas que o enfrentaríamos
para vencer. E eles se dispuseram a lutar junto. Éramos não mais
somente uma família. Éramos um exército e cada um faria sua
parte. Íamos vencer! E ninguém tinha dúvida disso! No dia 4 de
setembro comemoramos o aniversário de nossa filha somente entre
nós. No dia 11 e no dia 15 de setembro fariam aniversário os dois
meninos e no dia 22 seria o meu. Assim nós prometemos que quando
fosse possível faríamos uma festa para comemorarmos todos os
aniversários. E isto aconteceu em 9 de outubro de 92!!!. Dia 7 de
setembro fui para São Paulo com meu marido para a internação.
Minha irmã veio do Rio pra cuidar das crianças. Nessa hora bateu o
medo, a ansiedade, e questionei tanta coisa!!! Fui para a cirurgia
confiante e já esperando pelo pior. Não me surpreendi com a
mastectomia. Era a primeira batalha. O nódulo principal tinha 5 cm
e havia também outros nódulos bem como comprometimento linfático.
A quimioterapia era imprescindível. Fiquei internada até o dia 11
de setembro e quando tive alta fui para a casa de meu irmão que
mora em São Paulo. Meus filhos estavam lá me esperando. Era
aniversário do caçula e comemoramos em família. À noite eles
foram embora e nesse dia meu marido também precisou voltar. Não
podia mais ficar sem trabalhar e havia as crianças. Fiquei com meu
irmão, minha cunhada e meus 2 sobrinhos que me cobriram de
atenção e carinho. Mas como eles trabalham e meus sobrinhos
(meninos) estavam na escola e tinham também outras atividades, não
havia, durante o dia, quem cuidasse de mim. Desse modo, desde o
primeiro dia em casa, tomei banho sozinha e cuidei de mim. O
"cachorrinho" (dreno) incomodava e beliscava sempre e
ficava dentro de uma sacola da Cultura Inglesa que para mim mais
parecia Tortura Inglesa. Mas, tudo bem, fazia parte da minha guerra
contra o câncer. Aproveitava os dias para ler, coisa que gosto
muito. Também recebia visitas, poucas mas de amigos verdadeiros e
assistia televisão. À noite, quando todos chegavam, era aquela
alegria. Vinham todos pra minha cama (de casal, meu irmão me cedeu
o seu quarto que era maior e tinha TV) conversar, assistir ao Jornal
Nacional e ao filme que tinham alugado pra mim. Nunca assisti a
tantos filmes!!! Minha cunhada me acompanhava ao médico para as
consultas de rotina, até que no 10º dia (dia 18 de setembro) tirei
o dreno e tive alta para voltar pra casa. Não cabia em mim de tanta
alegria!!! A primeira etapa estava vencida! Comprei a prótese e
voltei pra casa. A segunda etapa começou logo em seguida: dia 21 de
setembro, voltei a São Paulo e fiz a primeira sessão de quimio
(foram 8 sessões, uma a cada 21 dias). Passei meu aniversário na
cama... Cada sessão de quimio representava 3 dias de vômitos e
mal-estar e outros 3 ou 4 me recuperando ainda nauseada. Era
péssimo!!! Tive infecção urinária e gripe também, mas não
deixei de cumprir o protocolo. Como conseqüência da quimio, meu
cabelo caiu e no dia 1º de outubro fui a uma festa de 15 anos, de
uma afilhada querida, Camila, de peruca. Todas as pessoas queriam
ouvir a história da minha doença com detalhes, inclusive quimio,
"calvície" e peruca. Como as pessoas gostam de
desgraças!!! Mas eu estava bem, em completo equilíbrio e conversei
com naturalidade, sem drama. Tinha bem noção de que não era a
primeira nem a última pessoa a estar passando por aquela situação
e que, afinal, sempre tem alguém pior. Aprendi a olhar pra baixo.
Esta foi uma de muitas lições!!! Mas o tempo é um grande aliado!
Terminaram as sessões de quimio, meu cabelo voltou a crescer e, em
julho de 93, fiz a reconstrução da mama. Voltei ao Hospital
Oswaldo Cruz com ansiedade, e medo também, mas cheia de esperança!
A reconstrução ficou ótima. Deu volume ao lugar vazio da mama. E,
claro, isto melhorou ainda mais a minha auto-estima. Aqui preciso
dizer o quanto minha família e, especialmente meu marido, foi
importante. Apesar de tudo eu me sentia bonita e nada prejudicou
minha sexualidade. Tive vida sexual normal e nós, meu marido e eu,
percebemos que queríamos envelhecer juntos, custasse o que
custasse. Bem, lá se vão 7 anos, quase 8! Durante todo esse tempo
fiz meus exames de controle do câncer e antes de fazê-los era
aquela ansiedade e medo de que poderia aparecer alguma metástase.
Mas quando vinham os resultados, enchia-me de esperança e alegria
novamente. Todas as batalhas foram até agora vencidas e hoje acho
que estou curada, mas a cada ano volto a fazer a bateria de exames
de rotina. Não descuido!
Às vezes penso que esta guerra
não tem fim...
|