Minha história é provavelmente, parecida com a de tantas mulheres que um dia sentiram o chão sair dos pés, ao descobrir  que tinha um nódulo no seio.
Era ano de 1981, eu tinha  54 anos. Muito bem casada, com um marido aposentado e dois filhos já casados, eu vivia um tempo feliz e tranqüilo de minha vida.
   Fazia eu uma excursão com meu marido  ao sul do Brasil, quando, no banho, percebi  um pequeno caroço no meu seio. Interessante é que ao perceber isto, tive logo a impressão que era maligno. Mas tentei continuar a viagem para que meu esposo não ficasse muito preocupado .
  Chegando ao Rio, logo procurei um médico indicado por meu ginecologista.
Logo na primeira consulta, percebi como era grande o número de pessoas que estavam sofrendo o mesmo drama do meu.
  O médico, era um senhor muito competente e religioso, mas não me deu muitas explicações. Só foi claro, diante da mamografia:
  Era preciso fazer uma MASTECTOMIA TOTAL. Assim, aos meus 54 anos, eu tirava a mama direita.
  O pós- operatório foi ótimo, e o "pós- emocional" foi melhor do  que todos e eu mesma pudesse esperar...
  A minha fé e confiança em Deus, não permitiram que eu me revoltasse. Coloquei em minha cabeça, que se aquele órgão ia me impedir de curtir a vida, ele teria mais é que ser extirpado... Talvez, pensasse assim pelo apoio e infinito amor com que fui envolvida por meu esposo, meus filhos, minhas noras e meus netos. Acho até que minha família é um presente que poucos têm igual. Sem dúvida alguma, o apoio dos que nos cercam é mais que um bálsamo de ternura...é o remédio que não nos permite entrar em depressão !
   Cumpri todas as ordens de meu médico, que naquela época, me recomendou que eu ficasse com o braço para cima por 45 dias. E eu fiquei...Até dormia com o braço para cima. Interessante é que o meu médico não era afetivo como eu sentia que precisava, mas ele me passava segurança e capacidade...E aos poucos eu fui entendendo seu modo de ser... Imagine que em cada tarde, ele atende a uma média de 15 mulheres com este drama, faz curativos e opera todas as manhãs...
   Graças a DEUS, o procedimento de quimioterapia e radioterapia, não foi necessário no meu caso.
   O tempo passou...Fui descobrindo coisas novas sobre isso. Procurava sempre ajudar a pessoas que se desesperavam ao descobrir que tinham o mesmo problema. Passei a viver minha vida de forma normal...
   Penso que todos os amigos e parentes reagem como um espelho da mulher mastectomizada...se ela está bem, tudo fica bem... se ela está depressiva, todos ficam preocupados e tristes também !
    Quanto à sexualidade, tive meus problemas, é lógico ! Meu marido era muito carinhoso e sempre fingia não perceber... Mas foi difícil... Percebi que era eu que me rejeitava, então procurei ajuda em terapia. Foi muito bom para mim e acho imprescindível para todas que têm seu corpo mutilado !
   Mas eu sempre fui muito vaidosa, então, em 1986,  5 anos depois da cirurgia,com 59 anos,resolvi reconstituir minha mama.Nada que um bom cirurgião plástico não curtisse fazer. Foi um médico de Niterói, que fez uma bela obra de arte no meu corpo. Em duas etapas, puxou músculos do meu abdômen, modelou uma mama, colocou o bico e operou a mama saudável, para que ficasse equilibrada.
Lembro que minhas noras se espantaram, mas  acharam o maior barato eu ter esta disposição de viver e viver com alegria !
   Passei assim a me sentir 0 Km outra vez... E com um manequim que me deixava mais elegante !!!
    Assim, a minha expectativa de vida sempre foi a melhor possível.
   Como disse a vocês, minha família é linda, mas passa seus pedaços como qualquer outra !
   Infelizmente, em 1989 perdi um de meus netos, que com 17 anos foi vítima de acidente..Era um neto muito especial e agarrado comigo... Estou contando este fato, porque acho importante vocês saberem que vivi momentos de choque e muita tristeza neste período de 1989 à  1993, quando levei mais um choque, perdendo meu filho de 44 anos, de morte súbita. Estes sim foram dramas...  Já nem me lembrava de minha mama...
   Mas o câncer bateu novamente à minha porta. Em 1996, descobri um nódulo na mama até então sadia.
Novamente fui mastectomizada pelo mesmo médico, que novamente não me indicou quimioterapia.
Nestes 4 anos, tenho levado minha vida com tranqüilidade...
Aos 73 anos, procuro ser bem ativa: faço hidroginástica, estudo inglês, fiz vários cursos de computador, visito sempre minhas amigas, leio , viajo e procuro não pensar no amanhã...
Entendo que na vida, todos passamos problemas e momentos difíceis, mas abaixo da misericórdia de DEUS, estão aí a tecnologia, as novas descobertas contra o câncer, e os novos métodos para aliviar nossos problemas.
 Seria impossível dizer que não sinto ansiedade e preocupação à cada retorno ao médico...afinal, surpresas podem acontecer ... Mas não me deixo abater !    
Por exemplo, desta segunda vez, descobri  novos tratamentos , como drenagem e uso de luvas contra o inchaço do braço . À pouco tempo, descobri e venho fazendo um tratamento em meu braço que me tirou todo o inchaço. Estou muito feliz...
  Nada pode nos impedir de vivermos felizes, diante do amor que recebemos de nossa família, diante da natureza linda que nos cerca, diante deste presente chamado VIDA, pelo qual agradeço a DEUS todos os dias.
  Se a minha alegria, o meu testemunho e a minha história puder ajudar alguém, fico feliz em  estar contribuindo
para ver o outro mais feliz- tarefa que, sem dúvidas, DEUS espera de mim e  de você também !

Um Abraço.

Veline
Jun / 2000

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