Em julho próximo se completará dois anos que tivemos a terrível noticia da existência do tumor. Não posso precisar datas do tratamento dela no meu depoimento, pois estes dados estão em poder de minha irmã. 
Minha irmã sempre foi uma pessoa muito reservada, pouco conversava e muito menos falava dos seus problemas conosco. Durante alguns meses ela se comportou de maneira misteriosa. Não sabíamos o que estava acontecendo, achávamos até que ela estava com algum namorado novo. Nem podíamos imaginar que um grande drama estava acontecendo com ela, pois ela já vinha se consultando com vários médicos, na tentativa de se tratar sem que soubéssemos o que estava acontecendo.  Acredito que este ato foi apenas para nos poupar de preocupações desnecessárias, mas foi um grande erro.
Depois de vários exames feitos, não foi possível esconder mais. Numa biópsia se constatou que ela estava com câncer de mama. Ela foi encaminhada para o INCA aqui no Rio de Janeiro para iniciar as aplicações de quimioterapia, pois o tumor já estava tão grande que não era mais possível operá-la de imediato. Era preciso reduzir o tamanho dele antes. Esta situação nos pegou de surpresa. Foi um choque para todos nós, principalmente para nossa mãe. Mas as esperanças eram fortes. Não acreditávamos que o estado dela fosse assim tão grave como nos diziam, pois minha irmã não aparentava estar doente. Continuou sorridente, curtindo a vida como se nada tivesse mudado. Com as primeiras aplicações de quimioterapia as coisas mudaram muito. Ela teve muitas reações como enjôos, tonturas, muitos vômitos. Não podia comer nada nos dias que sucediam as aplicações. Quando os cabelos começaram a cair, pensamos que ela reagiria negativamente, mas para nossa surpresa, ela não ligou. Nem quis comprar uma peruca, como nossa mãe insistiu. Sempre com bom humor, a ponto dos próprios médicos se espantarem. Minha irmã levou meses nestas aplicações de quimioterapia e durante todos esse tempo, os médicos sempre diziam que ela estava melhorando. Lembro-me do dia em que as secreções cessaram e o pequeno ferimento desapareceu. Foi um dia de vitória para todos nós. Mas essa alegria não durou muito tempo, pois novamente o ferimento se abriu e a secreção voltou. Novas aplicações de quimioterapia foram feitas, ainda mais fortes. O tumor avançava... Mas os médicos sempre diziam para ela que tudo estava indo bem. Nas consultas que fazia, minha irmã jamais permitiu que alguém entrasse no consultório com ela; aliás, fazem apenas algumas semanas que ela deixou que alguém de nós visse o tumor, e assim mesmo, por força das circunstâncias. Bem, desta forma, não tínhamos acesso ao parecer dos médicos. Tanto quanto ela,  achávamos que tudo ia bem. Até que foi indicado algumas aplicações de radioterapia. Novamente as reações não foram nada boas, além de queimaduras muito fortes pelo corpo que se transformaram em ferimentos difíceis de cicatrizar.
Foi nesta época que começamos a ficar muito preocupados, e sem que ela soubesse, tivemos a primeira conversa com o médico dela. Ele foi muito evasivo, quase não nos disse nada. Minha irmã continuava o tratamento rigorosamente,  já não a deixávamos ir sozinha ao medico. E foi numa dessas vezes, que a assistente social me chamou no escritório  para me dizer que minha irmã não tinha mais chances de sobreviver, que nada mais poderia ser feito por ela. Que daquele dia em diante, ela receberia apenas um acompanhamento médico, que deveríamos nos juntar e dár-lhe todo o apoio necessário, e que ela não teria muito tempo mais de vida. Foi o pior dia de toda minha vida! Quando saí do escritório da assistente social, tive que olhar para minha irmã que me aguardava na sala de espera, e reunir forças para não chorar na frente dela. Tive que mentir. Quando cheguei em minha casa, telefonei para as minhas outras duas irmãs e contei-lhes o que acontecera. Foi muito difícil falar sobre isso. Decidimos não contar nada para nossa mãe, ela não agüentaria. Ficamos sem o chão, sem o teto, tudo perdeu o sentido. Nesta época, minha irmã ainda se mantinha esperançosa de cura, e seu humor era ainda dos melhores. Resolvemos então buscar tratamento alternativo como forma de cura. Encontramos um médico em Campinas que utilizava a homeopatia. E assim, todos os meses ela se consultava com ele. Durante os primeiros meses os resultados foram excelentes. O tumor que estava com 15cm de diâmetro foi reduzido para 10cm !  No segundo mês, para 7cm ! Toda a família respirou tranqüila, afinal ela estava respondendo satisfatóriamente. Mas ... logo depois... as coisas se complicaram muito. Ela teve uma recaída... Os remédios foram alterados, e ela tinha que tomar duas injeções por dia, endovenosas, e somente num dos braços. Eram injeções bastante dolorosas, mas minha irmã as tomava sempre. Foram dezenas e dezenas de injeções para reforçar as defesas do corpo. Foram tantas as aplicações, que as veias do braço já não agüentavam mais, então as aplicações foram transferidas para as veias do pescoço, pés, mãos... até que também já não mais agüentaram. As injeções foram suspensas, e as aplicações passaram a ser via reto (até hoje ainda são aplicadas desta forma). Mas o tumor continuava avançando ...
O pequeno ferimento já era então um grande ferimento. Os curativos feitos antes com algumas gazes, eram agora feitos com o auxílio de fraldas descartáveis, tamanho o volume da secreção. Certa noite, minha irmã sofreu uma forte hemorragia quando tentou retirar o curativo para tomar banho. O sangue correu com tanta força que mal deu tempo para que ela chegasse ao quarto. Foi neste dia que uma de minhas irmãs teve de socorrê-la e viu o tumor pela primeira vez, e isto aconteceu há algumas semanas atrás. Foi um choque porque o que ela viu não foi nada comum. O tumor estava exposto, totalmente para fora do corpo. No lugar onde existiu o bico do seio, havia agora um enorme buraco. Onde era o seio, havia um volume muito grande de carne esponjosa. Minha irmã estava em estado de choque, sangrava tanto que foi preciso chamar uma ambulância com UTI para socorrê-lá. Após ser levada para o INCA e socorrida,  foi mandada de volta para casa.  Estas hemorragias se repetiram por várias vezes ainda... e podem ocorrer novamente.... mas ela não sabe que se isto acontecer,  não voltará mais para casa.
Atualmente, minha irmã vive sob o temor de nova hemorragia, sente muitas dores o tempo todo, tornou-se muito amarga, desacreditou na cura. Da pessoa calada que sempre foi, tornou-se ainda mais distante. Eu, minha mãe e minhas irmãs, procuramos sempre envolve-la nas conversas, buscamos sempre trazê-la a vida normal, tratando-a como se ela nada tivesse. Mas é muito difícil. Entendo-a...
Há duas semanas, o médico de Campinas me disse que ela não tem mais que 4 ou 5 meses de vida, talvez menos. 
Ela não sabe, nem minha mãe.
Eu e minhas irmãs vivemos sempre sobressaltadas na expectativa de a qualquer momento perdê-la.
Disto tudo, que aconteceu, sentimos um grande vazio em nossos corações, e a sensação de ter perdido a chance de salvá-la.
Se ela tivesse nos contado há tempo talvez pudéssemos tê-la tratado antes que o tumor se avolumasse tanto.
Aprendemos que o tempo é o fator decisivo para se combater o câncer, e que não adianta tentar poupar preocupações de quem nos ama retardando o relato, quanto mais demorarmos, mas grave a situação se torna e o sofrimento aumentará.
Mas não adianta pensar nisso agora porque o tempo não volta atrás...
 
Obrigada pela chance deste depoimento.
Um grande abraço,

VIDA-RJ
JUN-2000

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